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domingo, 15 de abril de 2012

Houve o tempo

Ouve o tempo
Esse sussurro quase surdo
Esse recado em garrafa lacrada
Ouve o rechaço do sonho
Sem chorar tanto seus olhos
Que não mais possam ler a mensagem
Ouve o murmúrio alheio
Sem se deixar tomar pelo receio
Nem rancor
Ouve o conselho próprio
Aquele que ninguém daria
Pega teu coração
Aquele de beleza inaudita
Guarda-o em local seguro,
A salvo do que é bruto, árido e seco.
Vá perambular inocente
Mas evite as ruas
Prefira jardins e telhados.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Enfim. Sós?

Eu só tenho as palavras para conversar
Tomo o precipício por início, eu sei
Mas se não foram ao julgamento de Deus,
Por que querem ver o meu?
Ai, que eu queria apenas te explicar
Que se nada é tão completo
Então tudo é repleto

sábado, 29 de maio de 2010

Posto que é chama,
quero ser flor de estufa.
Todo mundo merece
alguma proteção.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Antropofagia
















Eu me alimento de gente
É minha espécie humana




(com o desenho de Thèodore de Bry, século XVI)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A minha na sua

Como se entra na vida do outro?
Por uma fresta do olho ou do coração?
Como um sopro de vida ou furacão?
Como uma fagulha ou por esbarrão?
Por descuido ou por atração?
Por coragem ou por medo do não?

Como se sai da vida do outro?
Olha-se o mar aberto,
E empreende-se intensa natação.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Mapa astral

Há registro de alguém que tenha contrariado a determinação dos astros?
E se eu seduzir as cartas do tarô?
E se com as linhas da mão eu traçar outro caminho?
Sou humana, demasiadamente humana.
E hoje acordei com uma raiva danada de você.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Metas de consumo

Seus planos de energia solar em sua casa,
e o meu coração em autocombustão.

A vida é pra gastar a vida.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

História da moça cega convertida à Igreja de Nova Vida



Eu a vi no trem do metrô, indo pra Pavuna. Fazia frio, fazia calor. Tudo depende de quem vê. A moça cega inspira pena, dó, compaixão. Mas a roupa que combina ensina que talvez ali não haja completa solidão. Seios fartos, cabelos negros e compridos. Não fosse cega, seria bonita. A cegueira, no entanto, é desproteção. E ela cresceu curvada, cresceu quase bicho. Num mundo de sons, cheiros e tatos. Mas sem olhares ou espelhos. A moça cega no trem do metrô. Nada vê? Tudo sabe? A moça cega é tão jovem que deve sonhar. Mas traz sombrancelhas que franzem até encontrarem-se na mais profunda circunspecção. A moça cega ouve uma voz Te quiero, como o som da novela no canto da sala, como o rádio cantando na cozinha. Te quiero, repete.

Na vida há mais do que dizemos a nós mesmos?

Te quiero, repete.



(com Moça diante do espelho, de Pablo Picasso)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Ventania

 

O suspiro de amor
Vira sopro de vida.

domingo, 25 de outubro de 2009

Dia da criação



Vou esculpir os dias
à minha imagem
e semelhança
que sejam belos
que sejam tristes
que sejam
dias
a mais
a menos
para quem
tanto faz
os dias
serão
a vida.

sábado, 24 de outubro de 2009

Simetria



Nunca tão curto
Que não alcance
Nunca tão longo
Que nos separe
O braço tem a extensão
Do encontro
Os ângulos têm a dimensão
Do encaixe
Tanta errância
Tanta estrada
Que no fim vai dar
Em caminho
Nunca tão curto
Que não alcance
Nunca tão longo
Que nos separe

Retira-se entulho


Retira-se entulho
Da terra prometida
E joga-se uma pá de cal
No que não deu
Prepara-se o terreno
Para receber da vida
O troco da passagem
Da viagem
Sem retorno
Sem sinal
E sem contorno
Que cada um escolheu