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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A tragédia histórica

















"O território ocidental da Ilha de São Domingos, que passou ao domínio francês em 1697, por cessão da Espanha, se transformou em imenso canavial, com a importação de escravos. Durante o século 18, o Haiti (que significa, na língua nativa, terra montanhosa) viu extinta a sua população indígena. Em 1781, dos 556 mil habitantes, 500 mil eram negros, e o resto se formava de mulatos e brancos europeus. A terra, ocupada pela cana e culturas menos importantes, foi arrasada pela exploração colonial, predatória. Finalmente, em 1804, os haitianos obtiveram sua independência, embora só de fachada. Foi o segundo país da América a se tornar formalmente autônomo: o primeiro foram os Estados Unidos. (...)

Não há (provavelmente nem mesmo em algum lugar da África negra) população tão sofredora quanto a do Haiti, nem elite tão brutal. A desigualdade entre ricos e pobres não encontra paralelo no mundo. O país é o de menor PIB do Ocidente e de maior incidência de Aids; exibe a mais alta taxa de mortalidade infantil conhecida, e mais de 80% de sua população vivem na indigência quase absoluta. É um povo que tem todo o direito de exigir reparação histórica do mundo ocidental o que, nestas horas, enfrenta os danos do grande terremoto – o maior que atinge o país, desde o ocorrido em 1751 – há 259 anos. Ele foi arrancado de seu continente natal, a África, pelos colonizadores europeus; mantido na escravidão, até que se revoltou, mas a abolição foi uma mentira. Tem sido submetido, durante os dois últimos séculos, a uma opressão comandada ora por tiranos, ora por governantes dóceis, mas sempre sob controle externo. (...)

O terremoto e seus mortos, entre eles a doutora Zilda Arns e os demais brasileiros ali atingidos, podem servir para despertar os remorsos e a solidariedade do mundo – que não deve limitar-se à presença dos soldados da ONU, nem aos donativos de emergência."


Mauro Santayana, no Jornal do Brasil do dia 14 de janeiro de 2010.


Li no Professor Texto, e roubei inclusive a imagem de lá.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Antes que o homem faça, é necessário que sonhe
















"A convenção do calendário nos adverte de que demos mais uma volta em torno do sol, é costume fazer do ano a vir pequena e temporária utopia. Por mais pessoal que seja,  nos limites das próprias aspirações, sabemos que não a edificaremos sem a contribuição dos outros. Não há ser que possa viver absolutamente só. Para ganhar na loteria, esse sonho de alforria econômica e social, é preciso que outros apostem. É assim com tudo: o êxito das nossas empresas, a paz familiar, a alegria do reconhecimento alheio de nossas possíveis virtudes. E não é preciso falar nos sentimentos da amizade e do amor. Indivíduo é aquele que não pode ser dividido por outro, mas que pode e deve dividir-se, para multiplicar-se em seus atos e em seus
sentimentos. Ele se faz a partir dos outros, e sua inteligência, quaisquer que sejam os limites dos próprios atos e do conhecimento adquirido, irá influir sobre as pessoas com as quais conviva ou possa comunicar-se.

É raro pensar nessas coisas óbvias, exatamente porque são tão óbvias.

De forma quase natural aproveitamos estes dias de renovação da esperança para a confraternização. É o retorno à utopia maior, a da paz.

Quando passarem estas horas, voltaremos à guerra de todos contra todos, ou de quase todos contra todos, porque felizmente há quem resista, quem mantenha na alma a chama da solidariedade.

(...)

Mas as utopias são necessárias. Ao tentar realizá-las, as sociedades avançam. Assim foi possível abolir a escravidão, universalizar-se o ensino, melhorar o nível de vida e da saúde para grande parte da humanidade. Antes que o homem faça, é necessário que sonhe."


Mauro Santayana, em As convenções do calendário, publicado no Jornal do Brasil em 25 de dezembro de 2009.

Valeu, Silvio!