domingo, 22 de julho de 2012
A mulher de Lot
Dizem que olhei para trás de curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração - amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio,
na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam lá no cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus - simplesmente tudo que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou quem sabe foi só um vento que bateu,
despenteou meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma e outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.
Wislawa Szymborska
(tradução de Regina Przybycien)
sábado, 21 de julho de 2012
Vida e obra
Você sabe o que Kant dizia?
Que se tudo desse certo no meio também
Daria no fim dependendo da ideia que se
Fizesse de começo
E depois - para ilustrar - saiu dançando um
Foxtrote
Cacaso
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Sossego
Sim, existe sim um colírio
que lava o mundo, até mesmo
o universo
Aquela mocinha goiana
pele de bronze e de ouro
corpo desgracioso
vista
apoiada na esquadria
da porta da cozinha
que dá para o pátio da entrada
Na pose clássica
musical coreográfica
do pé nuzinho cruzado
com o outro
calçado com a sandália de dedo
(a outra soltinha do lado)
A primeira luz do
primeiro dia
fora do Paraíso
brilha naquele sorriso
de dentes meio vítreo-
escurinhos
O papagaio
no dedo
assovia que gostosa
para a multidão de
desejos
Enquanto o velho
barbicha
que há pouco deblaterava
esquece de tudo
dos ratos,
que não sentem gosto
mas têm faro apurado
e comem a ração dos cachorros
Ficam ali os quatro
a moça, o louro
o velho e um
quarto
O mundo apazigou-se
Sossegou
Francisco Alvim
que lava o mundo, até mesmo
o universo
Aquela mocinha goiana
pele de bronze e de ouro
corpo desgracioso
vista
apoiada na esquadria
da porta da cozinha
que dá para o pátio da entrada
Na pose clássica
musical coreográfica
do pé nuzinho cruzado
com o outro
calçado com a sandália de dedo
(a outra soltinha do lado)
A primeira luz do
primeiro dia
fora do Paraíso
brilha naquele sorriso
de dentes meio vítreo-
escurinhos
O papagaio
no dedo
assovia que gostosa
para a multidão de
desejos
Enquanto o velho
barbicha
que há pouco deblaterava
esquece de tudo
dos ratos,
que não sentem gosto
mas têm faro apurado
e comem a ração dos cachorros
Ficam ali os quatro
a moça, o louro
o velho e um
quarto
O mundo apazigou-se
Sossegou
Francisco Alvim
terça-feira, 19 de junho de 2012
sexta-feira, 15 de junho de 2012
may i feel said he
(i'll squeal said she
just once said he)
it's fun said she
(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she
(let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she)
may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she
may i move said he
is it love said she)
if you're willing said he
(but you're killing said she
but it's life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she
(tiptop said he
don't stop said she
oh no said he)
go slow said she
(cccome?said he
ummm said she)
you're divine!said he
(you are Mine said she)
e.e.cummings em erotic poems
quinta-feira, 14 de junho de 2012
meu reino é do outro lado do mundo
meu reino
meu mundo por um cavalo
por uma cabeça cavalar
meu cavalo?
só falta falar
este mundo
não me deixa reinar
neste reino me resta
ser vagabudo e ruminar
meu reino por um rumo
meu cavalo
só falta me montar
meu reino cavalga este mundo
- Logo ele nunca soube caminhar!
Paulo Leminski (1981)
meu reino
meu mundo por um cavalo
por uma cabeça cavalar
meu cavalo?
só falta falar
este mundo
não me deixa reinar
neste reino me resta
ser vagabudo e ruminar
meu reino por um rumo
meu cavalo
só falta me montar
meu reino cavalga este mundo
- Logo ele nunca soube caminhar!
Paulo Leminski (1981)
segunda-feira, 11 de junho de 2012
O tempo passa. Às vezes penso que teria que andar de pressa, aproveitar o máximo possível estes anos que me restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de escrutinar minhas rugas: “Ora, mas você ainda é um homem jovem”. Ainda. Quantos anos me restam desse “ainda”? Penso nisso e me aflijo, tenho a angustiante sensação de que a vida está me escapando, como se minhas veias tivessem se aberto e eu não pudesse estancar o sangue. Porque a vida é muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra Vida, quando dizemos, por exemplo, que “nos apegamos à vida”, estamos fazendo com que seja assimilada por outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos fazendo que seja assimilada pelo Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e estou certo de que isso é a vida. Daí vem a aflição (…). Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde aceitável, de ocupações rotineiras, de expectativa diante da sorte, mas quantos me restam de prazer? (…) “Ainda” quer dizer: está no fim.
E este é o lado absurdo de nosso acordo: dissemos que levaríamos tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reveríamos a situação. Mas o tempo corre, deixemos ou não (…) A experiência é boa quando vem junto com o vigor; depois, quando o vigor se vai, resta apenas uma peça de museu, decorativa, cujo único valor reside em ser uma recordação daquilo que já se foi. A experiência e o vigor são simultâneos por muito pouco tempo. Estou agora nesse pouco tempo. Não se trata, porém, de uma sorte invejável.
Mario Benedetti, no livro A Trégua.
E este é o lado absurdo de nosso acordo: dissemos que levaríamos tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reveríamos a situação. Mas o tempo corre, deixemos ou não (…) A experiência é boa quando vem junto com o vigor; depois, quando o vigor se vai, resta apenas uma peça de museu, decorativa, cujo único valor reside em ser uma recordação daquilo que já se foi. A experiência e o vigor são simultâneos por muito pouco tempo. Estou agora nesse pouco tempo. Não se trata, porém, de uma sorte invejável.
Mario Benedetti, no livro A Trégua.
Assinar:
Postagens (Atom)


