sexta-feira, 21 de setembro de 2012
annie
a febre
não quer passar
o tempo passa
porque não existe
o temporal lá fora
abafa o teu gemido
não grita, annie
que no quarto ao lado
alguém parece dormir
como engolir a lorota
a podre piada divina?
o universo
não tem sintaxe
a vida
sentido
e a natureza
essa puta louca
inventa monstros
microscópicos
que sabem
sugar os sonhos
a noite é longa, annie
na verdade infinita
na verdade não há noite
porque olhos são precisos
e enquanto
a pedra lá fora
espera teu breve nome
teu corpo breve
teu inútil sonho
uma ameba desperta
preguiçosamente
no intestino
de algum porco
Carlos Moreira
Com foto de Lee Jeffries.
domingo, 16 de setembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mas, por trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco pra ouvir, eu não entendo nada de música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono. Eu não tenho tempo. Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar dinheiro. Tenho pressa neste passo alucinado em direção ao buraco-negro do futuro.
Mas você acaba aceitando. Agora somos profissionais. Coloca no toca-discos, como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:
- Mother!
Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?
Caio Fernando Abreu
Trecho de Pra machucar os corações, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 6 de abril de 1986.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Lições
Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.
Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.
Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.
Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
Mia Couto
(Maputo, 2006)
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Solilóquio
Tudo o que importa é ser maravilhoso.
A maravilha: o gesto da inocência.
E do aceno o milagre a renascença
de deslumbrados olhos infantil espaço
e primavera - o homem volta ao homem;
o inefável gera enfim o mal sublime
no coração deserto; e da terna doença
a rosa azul desponta e levanto-me rei.
- Eu mesmo sou o encantador do mundo!
Seres e estrelas brotam de meus lábios…
e morro deste belo sofrimento
de ser maravilhoso!
- Ah, quem pudesse
gritar à noite e ao tempo essas palavras
e partir pelo vento semeando versos
e terminando a criação da terra…
Mário Faustino (1949)
Do livro O homem e sua hora. E outros poemas.
Assinar:
Comentários (Atom)



