segunda-feira, 6 de dezembro de 2010














Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos

defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre

defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria


Mario Benedetti

Li no Palavra Aguda.

domingo, 5 de dezembro de 2010
















A mulher
organiza as sombras para evitar o escuro
na pele sente o medo

é prudente na batalha com as perguntas
que pousam no dia

sorriso

quando o som do telefone invade a sombra
nenhuma palavra lhe sai da voz
deverá falar como se fossem outras coisas a
respirar em vez do grito?
à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes
sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.
mas não hoje

disse que não seria capaz de mudar
perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos
como movimentos grosseiros

nenhuma palavra ali tem asas

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha
as persianas e depois as cortinas
sem explicar o sentido do grito.


Maria Sousa

Li no As folhas ardem.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010



















i like my body when it is with your
body. It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh ... And eyes big love-crumbs,
and possibly i like the thrill
of under me you so quite new

e.e.cummings

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A vida tem sentidos infinitamente múltiplos e variados: todos aqueles que lhe conferirmos. A nossa condição é a ficção, o que não é uma razão para desprezá-la. Cabe a nós torná-la interessante.
Nancy Huston, no livro A Espécie Fabuladora.

sábado, 2 de outubro de 2010


















...o crescente bem do mundo depende parcialmente de atos não-históricos; e se as coisas não são tão ruins para você e para mim quanto poderiam ter sido, deve-se em parte aos tantos que viveram fielmente uma vida oculta e hoje descansam em túmulos não visitados.

George Eliot, pseudônimo de Mary Anne Evans (1819-1880), novelista inglesa, em Middlemarch (1871).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que
apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo
majestoso cargo de secretário geral do coral.

‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a
essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente
humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se
encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!


Mário de Andrade


Com quadro de Lasar Segall (1891/1957), pintado em 1927.

sábado, 28 de agosto de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010



















O novo sempre acontece à revelia da esmagadora força das leis estatísticas e de sua probabilidade que, para fins práticos e cotidianos, equivale à certeza; assim o novo sempre surge sob o disfarce do milagre. O fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável. E isto, por sua vez, só é possível porque cada homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo singularmente novo. Desse alguém que é singular pode-se dizer, com certeza, que antes dele não havia ninguém. Se a ação, como início, corresponde ao fato do nascimento, se é a efetivação da condição humana da natalidade, o discurso corresponde ao fato da distinção e é a efetivação da condição humana da pluralidade, isto é, do viver como ser distinto e singular entre iguais.

Hannah Arendt, em A Condição Humana.

terça-feira, 10 de agosto de 2010



















Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,
se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado

terça-feira, 3 de agosto de 2010

sábado, 24 de julho de 2010

NY 77: The Coolest Year in Hell



Nova Iorque, 1977: uma nova cultura emerge (punks, graffiti, disco, hip hop...) numa cidade então marcada pelo caos. Para culminar, eleições municipais e um blecaute convulsionam a metrópole! O documentário de Henry Corra mostra com brilhantismo a intensidade daquele ano em Nova Iorque. Enjoy!

;-)

domingo, 18 de julho de 2010

"Eu quero mudar o mundo", por Braulio Tavares

É um tique mental de nossa época. Todas as vezes que critico algo de errado, alguém diz: “Que é isso, rapaz! Você é um daqueles ingênuos que querem mudar o mundo?!” Claro que quero, sim, mudar o mundo, e não acho que seja ingênuo por querer isso. (Sou ingênuo noutras coisas; não nessa.) Querer mudar o mundo nunca foi ingenuidade, nunca foi utopia. Mudar o mundo não apenas é possível. É inevitável. Mudamos o mundo o tempo inteiro enquanto estamos vivos, enquanto estamos andando, agindo, falando, fazendo coisas. Optando, influenciando, interferindo.

Quando eu tinha dezesseis anos, a palavra de ordem era “mudar o mundo”. O cinema daquela época, a música popular, a literatura, o teatro, tudo que se fazia naquela época tinha como objetivo mudar o mundo. OK, nem tudo era assim – mas a parte mais significativa, mais inovadora, mais criativa e mais inteligente era assim. Todo mundo queria mudar o mundo. A expressão hoje na moda, “fazer sucesso”, já existia, mas era condicionada ao sucesso de cada um nessa tarefa, ou seja, à quantidade e qualidade de mudanças que cada um conseguia produzir.

Porque na verdade ninguém muda o mundo inteiro, instantaneamente, com um estalar dos dedos, uma batida da varinha-de-condão, não é mesmo? Os rapazes espertos de hoje, que só pensam em sucesso (leia-se: ganhar muito dinheiro), parecem supor que os projetos antigos de “mudar o mundo” buscavam isso – uma mudança tipo conto-de-fadas, um clique, um enter, um play. Pois olhe, naquele tempo não havia mudança que não exigisse esforço, trabalho, sacrifício; que não exigisse estudo ou preparação. O ideal de “mudar o mundo” não tinha a visão de hoje, quando tudo parece ser acessível e acessável, quando ninguém precisa nem saber ler para poder navegar, quando nem é preciso saber escrever para escolher o produto, basta levar até ele o dedinho do cursor e apertar o botão.

Estou sendo irônico com a cultura digital? É meu direito, porque foi minha geração, a dos cinquentões, que a inventou. Tim Berners-Lee, que inventou a World Wide Web, é mais novo do que eu; Bill Gates e Steve Jobs também. (Não digo isto para me gabar, porque além desse dado numérico não tenho muito a ver com esse pessoal.) Foram necessárias muitos milhões de noites em claro, simultaneamente, para criar os programas e protocolos que possibilitam a galera de hoje estar a um clique de distância do produto que querem comprar ou da foto de mulher pelada que estão procurando. (E, mais uma vez, não quero ser melhor do que ninguém – também compro produtos e olho foto de mulher pelada.) A poesia e o cinema talvez não mudem o mundo tanto quanto a informática e a política, mas mudam, sim, tudo muda. O mundo muda como o vento se move. Só é vento porque está se movendo, e só é mundo porque está mudando. Cabe à gente embarcar na mudança (que ocorrerá, queiramos ou não) e dizer: “Já que vai mudar, é pra mudar assim”. E mostrar como.

Braulio Tavares
 
Li no blog do Chacal.

terça-feira, 13 de julho de 2010














A ciência atual nos informa que o cérebro, quando pensa, é como uma imensa fogueira incendiada. E que as faíscas que desencadeiam as labaredas do cérebro são as palavras e, mais especificamente, as palavras poéticas, pois são como proteínas que vão desencadear nosso processo de pensamento e criatividade, pois, além de serem as sínteses de todas as informações contidas numa só palavra, a sua força maior não vem das informações acumuladas, mas da emoção que paira sobre elas.

Jorge Mautner, no livro O filho do Holocausto - Memórias (1941 a 1958).

domingo, 11 de julho de 2010

Muuuuuuito mais!!!!



:-)


















Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento.

Clarice Lispector

"Viajei de trem" com Sergio Sampaio



"Um aeroplano pousou em Marte
Mas eu só queria é ficar à parte
Sorrindo, distante, de fora, no escuro
Minha lucidez nem me trouxe o futuro"

terça-feira, 6 de julho de 2010

And in the end....



.... the love you take, is equal to the love you make.

;-)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

"Espaço curvo e finito", por Saramago.










Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


José Saramago, no livro Os Poemas Possíveis.


Com foto de Pedro Walter: José Saramago na praia Quemada, entre Yaiza e Tías, Lanzarote (Canárias).


Li no As folhas ardem.

Salve, salve: pra sempre Saramago!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Porque acreditar nas pessoas



Nesse trecho de conferência em 1972, o psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, Viktor Frankl, nos oferece uma poderosa visão sobre a busca do homem pelo sentido da vida e sobre a importância de ter o outro em alta conta.

:-)

domingo, 13 de junho de 2010

sábado, 12 de junho de 2010

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, na verdade não há.”

Renato Russo

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Da série "Reis do suingue"



O tempo é um lugar que não existe, mas Tim Maia avisa:
"A idade tarda um pouco / mas se chega é pra valer".
;-)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Adorei fazer esse!



Apresentação: Pedro Bial
Roteiro: João Carrascosa e Pedro Bial
Direção: Pedro Carvana




E ADOREI FAZER ESSE TAMBÉM:

Programa ASSUNTO: "A busca pela eterna juventude"
Apresentação: Pedro Bial
Roteiro: João Carrascosa e Pedro Bial
Direção: Mauro Mendonça Filho
Para assistir, clique aqui.

terça-feira, 8 de junho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010

A vida é a oferta que agradeço
hoje. Toda a vida é hoje. Os teus olhos
e os meus olhos. O ponto em que se deram
é hoje. E até onde chegam e de onde
regressam, é hoje.

Toda a vida é hoje, e parece-me
suficiente o ter vivido tanto
se neste hoje de hoje cabe o teu lúcido
olhar sobre mim, e o futuro é
um hoje perpetuamente teu.

Concede-me agora
a felicidade de morrer, hoje que não tenho
nem passado nem medo.


Federico Gallego Ripoll


Li no Palavra Aguda.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

"Ser brotinho", Paulo Mendes Campos















Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível. Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos.

Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder con tar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.

Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa.

Ser brotinho é a inclinação do momento.É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas. Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.

É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.

Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição.
Amanhecer chorando, anoitecer dançando.

É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser.

É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial.

Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.


Paulo Mendes Campos


(Valeu, Maroca!!!)


Encantadora. Encantadora de histórias, como disse Luiz Favilla. Fundamental escutá-las.

sábado, 29 de maio de 2010

Paul Weller!!!



:-)
Posto que é chama,
quero ser flor de estufa.
Todo mundo merece
alguma proteção.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Tomara

O trabalho árduo é de prata
mas sem um céu aberto não dá
Quando te vi só vi estrelas
e um querer sem qualquer amarra

Tel sibilar sulino é pura cocaína
como teus olhos cor de piscina
me remetem às tramas de cinema,
às fotos de mulheres inatingíveis

Tâmara do Egito, o sol da Barra
braço arrepiado, um empurrãozinho de Deus:
Tudo o que eu preciso agora é você.

Mauro Santa Cecília

sábado, 22 de maio de 2010

terça-feira, 11 de maio de 2010

Italo Calvino, em "O cavaleiro inexistente"



















Um tanto galopo pelos campos de guerra entre duelos e amores, outro tanto me encerro nos conventos, meditando e escrevendo as histórias que me ocorrem, para tentar entendê-las. Quando vim me trancar aqui estava desesperada de amor por Agilulfo, agora queimo pelo jovem e apaixonado Rambaldo.

Por isso, a certa altura, minha pena se pôs a correr. Corria ao encontro dele; sabia que não tardaria a chegar. A página tem o seu bem só quando é virada e há a vida por trás que impulsiona e desordena todas as folhas do livro. A pena corre empurrada pelo mesmo prazer que nos faz correr pelas estradas. O capítulo que começamos e ainda não sabemos que história vamos contar é como a encruzilhada que superamos ao sair do convento e não sabemos se nos vai colocar diante de um dragão, um exército bárbaro, uma ilha encantada, um novo amor.

Corro, Rambaldo. Não me despeço nem da abadessa. Já me conhecem e sabem que depois das batalhas, abraços e enganos retorno sempre a este claustro. Mas desta vez será diferente… Será…

De narradora no passado, e do presente que me tomava a mão nos trechos conturbados, aqui está, ó futuro, saltei na sela de seu cavalo. Quais estandartes novos você me traz dos mastros das torres de cidades ainda não fundadas? Quais fumaças de devastações dos castelos e dos jardins que amava? Quais imprevistas idades de ouro prepara, você, malgovernado, você, precursor de tesouros que custam muito caro, você, meu reino a ser conquistado, futuro…


Italo Calvino, em O cavaleiro inexistente.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Gil Scott-Heron em "The revolution will not be televised"




"Durante muitos anos era apresentado como o "Bob Dylan negro", pela costela política. Mas sempre foi mais direto ao assunto, ou não tivesse escrito uma canção sobre segregação racial na África do Sul chamada "Johannesburg"; ou outra sobre alcoolismo, "The bottle." "Quando comecei a minha audiência não tinha muita paciência" - lembra, com alguma ironia, numa entrevista dada por estes dias -, "não havia espaço para grandes subtilezas".

No final dos anos 60 e primórdios dos 70, num período de lutas cívicas, convulsões econômicas e mudanças sociais aceleradas, poucos conseguiram capturar as contradições de um país, a América, como ele. Inicialmente através da escrita - publicou o primeiro livro, "The Vulture", aos 19 anos. Mais tarde, quando ia publicar o terceiro livro, e depois de ter conhecido o músico e produtor Brian Jackson que o viria a acompanhar durante mais duas décadas, entendeu que o método de comunicar teria que mudar e a soul, o funk ou o jazz tornaram-se no veículo de difusão da sua paixão: a poesia.

Nesse período debitava acima de tudo para audiências negras, aprendendo com a "spoken-word" do poeta e ativista Amiri Baraka ou com o jazz de Coltrane e Miles Davis. Mais tarde, no final dos anos 70 e primórdios dos 80, quando o hip-hop irrompeu, foi considerado um dos pioneiros do gênero. Grupos como Public Enemy ou Disposable Heroes Of Hiphoprisy citavam-no e novas gerações, de todas as cores, redescobriam-no."

Trecho do texto de Vítor Balenciano sobre Gil Scott-Heron, que você pode ler na íntegra clicando aqui.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O que passou, passou?




















“Somos aquilo que nos lembramos e, além disso, eu costumo acrescentar, somos também aquilo que podemos esquecer”, diz Ivan Izquierdo em Utopia e Barbárie. Faz lembrar a advertência de David Lowenthal, de que o “passado não está simplesmente lá, num país separado e estrangeiro, ele é assimilado por nós e ressuscitado num presente sempre em mutação”. “Assim como somos produtos do passado”, ele continua, “também o passado conhecido é um artefato nosso”. Então, o que passou nos constitui (enquanto identidade) e (enquanto narrativa) está sendo permanentemente transformado pelo que somos, hoje.

A história já foi tida como um repositório de ensinamentos atemporais e, portanto, eternos. A “história mestra da vida” oferecia as lições morais de um tempo (supostamente) sempre igual. O historiador Reinhart Koselleck explica que, na acepção da Antiguidade ou do Cristianismo, não se esperava do futuro algo de fundamentalmente novo, mas somente algo análogo ou igual. O horizonte de expectativa acerca do futuro coincidia com o espaço de experiência vivido até então.

É o Iluminismo - e sua noção de progresso - que produz o descolamento entre espaço de experiência e horizonte de expectativa. A história passa a ser entendida como um espaço aberto à experiência humana. A história passa a ser percebida enquanto processo. Na visão iluminista, um processo de realização da razão. O Iluminismo instaura o “reino da crítica”, diz o historiador alemão. E “a crise invoca a pergunta ao futuro histórico”. A Revolução Francesa encarna o lugar de acontecimento paradigmático dessa nova (ou melhor, nascente) consciência histórica: a noção de que as coisas podem ser diferentes, e melhores. A história passa a ter motor: as idéias, os ideais, os “ismos” (que Koselleck chama de conceitos de movimento), tais como o republicanismo, o socialismo, o comunismo e tantos outros...

Chegamos, então, a Utopia e Barbárie. O filme de Silvio Tendler narra a experiência do século XX e mostra a humanidade em seus movimentos de utopia e barbárie. O século XX dos lemas libertários da década de 1960 é o mesmo século em que o Holocausto provou que a humanidade nem sempre se move na direção do progresso e da razão. Como já bem disse o poeta Ferreira Gullar, a humanidade do ser humano é uma coisa inventada, pelo próprio homem.

A recente tragédia no Haiti, em janeiro de 2010, adverte: as conseqüências de nossos atos históricos podem voltar qual tsunami, qual terremoto, e destruir tudo. A tragédia do Haiti não é apenas natural (o terremoto). Como escreveu Mauro Santayama, ela é histórica. O passado de exploração sobre o povo haitiano semeou a obra de desvastação que o terremoto apenas concluiu. O passado, portanto, não é algo que passou.

George Kubler, historiador americano, escreveu: “Todos os eventos do passado são mais remotos para os nossos sentidos do que as estrelas das mais distantes galáxias, cuja luz pelo menos ainda alcança os telescópios”. Pois Silvio Tendler construiu, com Utopia e Barbárie, um potente telescópio, que aponta para o passado, mas também para o futuro, na medida em que pode instaurar um espaço de reflexão, de crítica. Sobre nós, sobre o que viemos fazendo – enquanto humanidade – até aqui. Que Utopia e Barbárie instaure uma produtiva crise em nossos corações e nos leve a fazer perguntas sobre nosso futuro histórico!

Cada vez que assisto a Utopia e Barbárie fico emocionada. De sua origem no Latim, emocionar-se quer dizer que ficamos movidos para fora de nós mesmos. Tomara que vocês se emocionem ao ver esse filme. Tomara que fiquem tocados a buscar caminhos para fora de si e na direção do outro, fraternalmente. Como diz o poeta Ferreira Gullar no documentário, uma vez que a vida é finita, é no outro que teremos continuidade. Salve, Silvio, seu filme inspira! Ecoam suas palavras: "Solta o coração e vai!".

Carla Siqueira

(Texto escrito para a revista de lançamento do filme Utopia e Barbárie de Silvio Tendler, que entra em cartaz no próximo dia 23 de abril. Para assistir o trailer, clique aqui.)

domingo, 18 de abril de 2010

Folhas Secas



Uma das músicas mais lindas do mundo, por uma das vozes mais fantásticas do universo...
Elis Regina cantando Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.
:-)

sábado, 17 de abril de 2010

O mundo que venci deu-me um amor















O mundo que venci deu-me um amor
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes encouraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória...

Mário Faustino (1930-1962)

(comemorando a reedição de O homem e sua hora)

segunda-feira, 12 de abril de 2010



Sensacional!














No peito, a manivela ferrugenta
que faz abrir a respiração
começou a emperrar
e o corpo aprendeu rapidamente:
o suor como se a roupa
fosse um antídoto.

O belo cavalo branco de cascos
impretéritos avançou
então
pelas vértebras
mas não impediu que a imagem
fosse real.

Cordas de piano
por onde trepam os assassinos
e onde por vezes
se enforcam
antes de alcançarem a janela,
o repto impune dos que dormem:
vela-me.


Vasco Gato, em Omertà.

Mais um poeta português descoberto no ótimo As folhas ardem.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Antropofagia
















Eu me alimento de gente
É minha espécie humana




(com o desenho de Thèodore de Bry, século XVI)

sábado, 3 de abril de 2010

Já que é Páscoa...



Trecho final do filme Easter Parade (1948), com Fred Astaire e Judy Garland, direção de Charles Walters e música de Irving Berlin.

:-)

Eu sou trezentos

















Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo

Mário de Andrade

terça-feira, 30 de março de 2010

Tudo num ponto (a versão de Italo Calvino para a teoria do Big Bang)




















Disse "como sardinha em lata" apenas para usar uma imagem literária; na verdade, não havia espaço nem mesmo para se estar espremido. Cada ponto de cada um de nós coincidia com cada ponto de cada um dos outros em um único ponto, aquele onde todos estávamos. (...) Se tudo estava tão bem assim, tão bem, é que qualquer coisa de extraordinário deveria acontecer. Bastou que a certo momento ela dissesse:
-- Pessoal, se tivesse um pouco mais de espaço, como gostaria de preparar um tagliatelle!
E naquele momento todos pensamos no espaço que teriam ocupado os seus roliços braços movendo-se para frente e para trás como rolo a adelgaçar a massa, o grande volume do peito descendo sobre o grande monte de farinha e de ovos que atulhava a imensa travessa enquanto seus braços amassavam amassavam, brancos e untados de óleo até os cotovelos; pensamos no espaço que haveria de ocupar a farinha, e o grão para fazer a farinha, e os campos para cultivar o grão, e as montanhas das quais descia a água para irrigar os campos, e os pastos para os rebanhos de gado  que forneceriam a carne para o molho; no espaço que seria necessário para que o Sol chegasse com seus raios e amadurecesse o grão; no espaço que seria necessário para que a partir das nuvens de gás estelares o Sol se condessasse e inflamasse; na quantidade de estrelas e galáxias e amontoados galácticos em fuga no espaço que teria sido necessária para manter suspensa cada galáxia cada nebulosa cada sol cada planeta, e no momento mesmo em que pensávamos esse espaço começou, incontidamente, a se formar: no exato momento em que a sra. Ph(i)NK° pronunciava aquelas palavras: "... um tagliatelle, hein, pessoal!", o ponto que a continha e a nós todos se expandia numa auréola de distâncias de anos-luz e de séculos-luz e milhares de milhares-luz, e éramos projetados para os quatro cantos do universo (o sr.Pbert Pberd foi bater em Pavia), e ela se dissolveu não sei em que espécie de energia luz calor, ela, a sra. Ph(i)Nk°, aquela em que em meio ao nosso fechado mundo mesquinho fora capaz de um impulso generoso, o primeiro, "Ah, pessoal, que tagliatelle eu prepararia!", um verdadeiro impulso de amor geral, dando início no mesmo instante ao conceito de espaço, e ao espaço propriamente dito, e ao tempo, e à gravitação universal, e ao universo gravitante, tornando possíveis milhares e milhares de sóis, de planetas, de campos de trigo e de sras. Ph(i)NKº, esparsas pelos continentes dos planetas batendo a massa com seus braços enfarinhados, untuosos e generosos, enquanto ela se perdia a partir daquele instante, deixando-nos a recordá-la saudosos.

Italo Calvino, trecho de Tudo num ponto, do livro As Cosmicômicas.

sábado, 27 de março de 2010

Eu conquisto o universo com palavras


















Eu conquisto o universo com palavras.
Desonro a língua materna,
A sintaxe, a gramática,
Os verbos e os nomes,
Violo a virgindade das coisas
E crio uma língua nova
Que esconde o segredo do fogo
E o segredo da água.
Ilumino a nova era
E detenho o tempo nos teus olhos,
Apagando a linha que separa
Este instante da passagem dos anos.

Nizar Qabbani



Nizar Qabbani (1923-1998) foi um poeta e diplomata sírio.

Sua poesia me foi revelada pelo blog Do trapézio, sem rede.

A versão para o português foi feita pelo autor do blog, a partir da tradução inglesa de Bassam K. Frangieh e Clementina R. Brown, reproduzida em Arabian Love Poems (A Three Continents Book, Lynne Rienner Publishers, Londres, 1998).


















Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c’um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.


Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.


Álvaro de Campos / Fernando Pessoa (1927)


Com o desenho de Fernando Pessoa por Almada.















"Toda folha de grama tem seu anjo que se curva sobre ela e sussurra: 'Cresce, cresce'. Tivemos a sorte de nascer em famílias que nos ofereceram uma certa estrutura, que nos possibilitaram estudar e crescer - já nascemos arbustos. Poderíamos retribuir sendo, para as folhas de grama, o anjo que sussura."


Martha Medeiros, na Revista O Globo, em 21 de março de 2010.
 
Me foi sussurrado pelo Professor Texto. Valeu, Luiz!


Gênio.

terça-feira, 23 de março de 2010

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sobre as vozes dentro e fora de nós: ouça-as.



O site TED - Ideas worth spreading tem palestras interessantíssimas.
Essa eu vi no Professor Texto, e repito inclusive seu comentário:

"As nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas. A romancista Chimamanda Adichie conta a história emocionante de como descobriu a sua voz cultural - e adverte que se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, arriscamos um desentendimento crítico."

Assista. Vale muito.

(Clique em "view subtitles" para escolher o idioma das legendas.)















Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

domingo, 14 de março de 2010

"Primeiro prêmio de violoncelo", de 1907



Filme da Pathé de 1907.
Diretor desconhecido.
Música de Eric Le Guen.

Uma graça.

E fica de homenagem aos amigos músicos. :-)

sábado, 13 de março de 2010

Don't stop believing




"Working hard to get my fill
Everybody wants a thrill
Payin' anything to roll the dice just one more time
Some will win, some will lose
Some were born to sing the blues
Oh, the movie never ends
It goes on and on and on and on"

;-)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Infinito particular















Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro, o meu quilate
Vem, cara, me retrate
Não é impossível
Eu não sou difícil de ler
Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular
Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

De Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown.

Ouça aqui.

quinta-feira, 11 de março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010




















Diego,
É uma verdade, bem grande, que eu
não queria falar, nem dormir
nem ouvir, nem querer.
Sentir-me encerrada, sem medo
de sangue, sem tempo nem magia,
dentro do teu próprio medo,
e dentro da tua grande angústia,
e mesmo no ruído do teu coração.
Toda essa loucura, se a ti perguntasse,
sei que seria, para o teu silêncio,
pura confusão.
Peço-te violência, na desrazão,
e tu, me dás a graça, tua luz e
calor.
Gostaria de pintar-te, mas não há cores,
por haver tantas, em minha
confusão, a forma concreta
do meu grande amor.

Frida Khalo, em seu diário, para Diego Rivera.

Com um dos auto-retratos de Frida.

domingo, 7 de março de 2010


















The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop, em One art

(Valeu, Laura!)

Cidade Negra em "Girassol"



Com os mais sinceros desejos de que nossas vidas sejam sempre solares!
Gira sol!
:-)

sábado, 6 de março de 2010



"And straight jazz became hot", começa o narrador nessa pérola: imagens de Stéphane Grappelli e Django Reinhardt tocando no Quintette du Hot Club de France, o grupo criado por eles em 1934.

Lindo.



















Pés para que os quero
Se tenho asas para voar.

Frida Khalo

(com a reprodução da página de seu diário)

quinta-feira, 4 de março de 2010

















Você chama de violentas as águas de um rio que tudo arrastam, mas não chama de violentas as margens que o oprimem.

Bertolt Brecht



















O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade?

Padre Antônio Vieira

Vi no Palavra Aguda.



















Entendido já foi que a palavra que define exatamente este novelo é remorso, mas a experiência e a prática da comunicação, ao longo das idades, têm vindo a demonstrar que a síntese não passa de uma ilusão, é assim, salvo seja, como uma invalidez da linguagem, não é querer dizer amor e não chegar à língua, é ter língua e não chegar ao amor.

José Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo.

Li no (o grifo é meu).

















Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias.
Deus mesmo, quando vier, que venha armado!

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: veredas.


















Eu te vejo mais fundo do que você me vê, porque eu te invento neste olhar.

Caio Fernando Abreu

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Aonde todos querem chegar



Música, direção, roteiro e animações, ou seja, TUDO de Humberto Barros!
Fantástico.
Tb da série "Porque me ufano dos meus amigos".   :-)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010



















Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos,
resta-nos um último recurso: não fazer mais nada.
Por isso, digo, quando não obtivermos o amor,
o afeto ou a ternura que havíamos solicitado,
melhor será desistirmos
e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram.
Não fazer esforços inúteis,
pois o amor nasce, ou não, espontaneamente,
mas nunca por força de imposição.
Às vezes, é inútil esforçar-se demais,
nada se consegue;
outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés.
Os sentimentos são sempre uma surpresa.
Nunca foram uma caridade mendigada,
uma compaixão ou um favor concedido.
Quase sempre amamos a quem nos ama mal,
e desprezamos quem melhor nos quer.
Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor,
e falhado, resta-nos um só caminho...
o de mais nada fazer.
Clarice Lispector

Com a pintura de Edward Hopper.
















Conheça Bezerra: http://bomcamarada.wordpress.com/

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010



Ainda em homenagem.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Flor da vida

A convulsão trágica precede a do riso. A vida brota da morte. Cegonhas e andorinhas trocam de clima, sem jamais abandoná-lo inteiramente. E é assim que tudo se conserta e se restitui.

Machado de Assis, em Viver

Em homenagem ao amigo Rômulo, que partiu.

Cruel II

cruel é mentir uma vez e não parar
cruel é saber do filho devagar
cruel é fazer bonito e não vencer
cruel é ver a mãe morrer
cruel é acordar desaparafusado
cruel é pedir a Deus e ao diabo
cruel é desaprender a namorar
cruel é assistir o tempo voar
cruel é falar pensando alto
cruel é falhar na hora do ato
cruel é ouvir sempre o mesmo som
cruel é o desprezo do garçom
cruel é evitar o espelho
cruel é espalhar mau cheiro
cruel é se culpar de tudo
cruel é viver só no futuro
cruel é banhar neném na poça
cruel é tratar mal a moça
cruel é não parar de suar
cruel é não mais respirar

De Mauro Santa Cecília

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010














"Bonito é tudo aquilo que não dou conta de ver sozinho", costuma dizer um amigo meu.
Deve ser essa também a idéia da arte de rua.
Conheça o unurth: uma galeria de fotos de arte de rua do mundo todo.
Dica do bonito isso.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.

Italo Calvino, em As cidades invisíveis.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Acho que estou a precisar de ir descansar













Acho que estou a precisar de ir descansar. Vou para o meu quarto,
que sei perfeitamente onde fica.

Lembro-me de outrora ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de pequenas gavetas,
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um solitário feixe de luz incide no armário,
parece vir enfeitado de lampadazinhas coloridas,
conhecidas também por colours of the rainbow.
Naquela gaveta poderá estar um perfil de telhados –
silhueta trespassada
pelo grande sol frio do fim da tarde.

Lembro-me de outrora ter falado de bosques…
Naquela gaveta poderá estar o espelho longevo
com seu insubstituível reflexo de divisões infantis.

Quatro ou cinco gavetas terão uma praia
que se estende com a luz matinal
a varar as distâncias.

Outras terão as abas dos guarda-sóis
com o som que fazem quando lhes dá o vento.

Tenho um armário com as imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.

A perenidade ao sol
de Françoise a beber o mazagrin
também deve estar em alguma gaveta.

Não faço ideia da gaveta em que estará a tarde
que decorre com esplanadas ao fundo
e onde tudo quanto se move
é descontracção e alegria.

Fátima oferece-me água da Serra da Penha
numa gaveta que exista e que seja secreta.

Em que gaveta estará o menino a lamentar-se aos pais
por o caranguejo que apanhara
já não estar no balde que trazia?

Françoise bebe agora um cocktail, talvez de ginger ale.
Mas não sei em que gaveta. Se bem me recordo, contemplava um soleil couchant,
kitsch, ele também, por sua vez, mas lindo até ao fim do mundo.

…………………………………………………..

distantes margens delineando a noite,
pontilhadas por pequenas iluminações esparsas
que parecem só existir assim, vistas de longe.

Dentro desta gaveta estou eu com dezassete anos, no pinhal ao sol,
com duas latinhas de lulas e a minha ideia de poesia.

Aquela gaveta, que parece mais privada,
seria a que as mulheres daquele tempo escolheriam
para retocar nos lábios o bâton cereja.

E nesta, mais notória,
estarão os cães a ladrar e a caravana a passar.

Tenho ideia de que será nesta gaveta – bem, ou talvez nesta –
que se poderá encontrar Françoise
a soltar o seu cabelo castanho de francesa.

Mas, por exemplo, não faço a mínima ideia
onde possa estar a brisa suave que ameniza a temperatura de Agosto,
nem a gaveta que guarda o relógio que nunca pára
e que agora, muito naturalmente, assinalará as banalíssimas onze da manhã.

É provável que no armário já não exista nenhuma gaveta
com o entusiasmo do mar sobre os penedos. É provável que já não haja
nenhuma gaveta vaga para a senhora de apelido Araújo
e para as palavras límpidas que de olhos nos olhos dissemos,
enquanto – na voragem exterior a nós – lhe dedicava um livro
e lhe entregava nesse olhar os meus últimos feixes
de vitalidade, os meus mais raiados votos de que fosse feliz.

Não mais a verei, amável senhora,
inteligente e bonita senhora sensível. Não mais a verei,
e vim para esta casa com essa amargura.
Porque penso que a poderão interessar, procure as palavras
de Isabel Rio Novo sobre a Dimensão Fantástica.
Presumo que as encontrará com facilidade nos recentes dispositivos tecnológicos.
E procure também a própria Isabel Rio Novo; encontrá-la-á
ao seguir pela escada que dá para o lado do mar.

Senhora de apelido Araújo, esta foi a forma que tive de comunicar
consigo. De lhe dizer que acredito em si. De lhe dizer
que acredito na Nova Mulher, com a Qual (movimentos democráticos
de cariz feminista) me estanciei no lindíssimo período da minha mocidade. Essa [Mulher
é ainda hoje a minha Mulher favorita. E agora, desta vez, sugiro-lhe
que procure Ana Luísa Amaral, encontrá-la-á com facilidade onde estiver a [acontecer
a boa educação.

Mostre a sua existência, caríssima senhora Araújo, mostre o seu valor,
mostre que não é uma metáfora deste texto. E exista tal qual é,
ouça, tal qual é, não pusilânime, não petulante feita à pressa, não solerte
miserabilista, não carneirinha da manada, e sabendo
– como bem o sabe – que o azedume não é sinónimo de raciocínio,
antes sim, como facilmente se compreende
(só os próprios azedos não o compreendem por nada saberem raciocinar),
sinónimo das próprias frustrações.
esta foi, bela senhora de apelido Araújo, a forma que tive de comunicar
consigo, a forma que encontrei para lhe poder dedicar as duas próximas estrofes.

Crianças de aldeias, crianças a quem na infância acenei
do vidro traseiro do automóvel rápido
e que ficaram pelos caminhos a brincar ao verão,
sem que para isso precisassem de conhecer praias.
O que foi feito de vós?
O que fizestes aos vossos sorrisos puros?
Como eu gostava que a minha vida vos tivesse oferecido uma gaveta!
Choro agora de tantas saudades por tão breves instantes.

Raparigas contentes em suas roupas claras,
em suas roupas claras sobre os seios que cresciam,
amei-vos sem nunca mais vos ver,
amei-vos por nunca mais vos ter visto,
amei-vos intensamente, como a qualquer coisa que se desprende
e se perde da nossa lembrança de saber o quê.

Em mim ficastes a pertencer às distâncias cheias de luz,
diluídas agora, e ainda mais, pelas minhas lágrimas.

Neste momento, tardio, em que é de mim que me despeço,
entregar-vos-ia, no melhor gesto da vida, o meu armário todo.

A baleia encalhada deve estar nesta gaveta maior,
e nestas ao lado estarão as pessoas transportando água do oceano
para lhe verter no dorso.

Se de facto é nesta gaveta maior que está a baleia,
é por aqui que está o marinheiro da luz pálida e molhada,
a comunicar que mais nada se podia fazer;
a baleia tinha morrido.

Lembro-me de um dia ter escrito livros, de ter
falado de bosques.

Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de gavetas
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um armário com imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.


De Daniel Maia-Pinto Rodrigues, no livro A casa da meia distância, lançado ontem em Portugal.

E que me foi dado à descoberta no lindo As folhas ardem.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Heaven can wait



O talento de Charlotte Gainsbourg (e o DNA poderoso de Serge Gainsbourg e Jane Birkin) somado ao talento de Beck. Música e clip sensacionais.

(Valeu a dica, Godum!)

sábado, 6 de fevereiro de 2010



Linda cena, com os talentosos Charlotte Gainsbourg e Johnny Deep e a bela música do Radiohead.
Do filme ... e viveram felizes para sempre (2004), de Yvan Attal.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Tus regalos deberían de llegar




Tus regalos deberían de llegar
Si todo se termina ,
Todo vuelve a empezar.
La mañana que se viene
Es una vieja sensación
Que refleja en los espejos del tiempo.
Y la niña acurrucada en el rincón
Es la chica contra la furia de dios.
Tus regalos deberían de llegar
No es mucho lo que tengo para darte, mirá.

Y no sabés si detenerte o llover
Y parada sobre el mundo a tus pies
Tu sonrisa que nos hace temblar
Tiembla el mundo
Que no entiende al final
Ese beso de la vida, la sutil melancolía
El momento cuando piras
Los espacios donde miras
Y las gotas de tu lluvia se irán
Y tus regalos deberían de llegar
Y las gotas de tu lluvia se irán.


Trecho de Tus regalos deberían de llegar, de Fito Paez.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Mal secreto



Desejo de Waly Salomão realizado por Luiz Melodia.
Música de Waly Salomão e Jards Macalé.
Direção de Karla Sabah e fotografia de Jacques Cheuiche.
Com Perinho Santana, Renato Piau, Luiz Melodia e Waly Salomão.


Linda letra de Waly Salomão:

Não choro,
Meu segredo é que sou rapaz esforçado,
Fico parado, calado, quieto,
Não corro, não choro, não converso,
Massacro meu medo,
Mascaro minha dor,
Já sei sofrer.
Não preciso de gente que me oriente,
Se você me pergunta
Como vai?
Respondo sempre igual,
Tudo legal,
Mas quando você vai embora,
Movo meu rosto no espelho,
Minha alma chora.
Vejo o Rio de Janeiro
Comovo, não salvo, não mudo
Meu sujo olho vermelho,
Não fico calado, não fico parado, não fico quieto,
Corro, choro, converso,
E tudo mais jogo num verso
Intitulado
Mal secreto.













Viva Waly Salomão!

(Foto de Selmy Yassuda.)


Valeu a dica, Cleber!!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Notas para o diário




















deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


Do poeta português Al Berto, em seu livro Horto de incêndio.

 
Li no As folhas ardem, que traz ainda o comentário de Al Berto:
 
“A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque”.















Mais autonomia às tuas esperanças. Impossível marcar lugar e hora para as surpresas. Nunca dá certo. Receberás aquilo com que já não contas na festa que não esperas.

Aníbal Machado, em Cadernos de João

Li no (o grifo é meu).

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Os pecados do Haiti, por Eduardo Galeano
















A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca idéia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito com um voto sequer.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:

– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.


O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:

– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.


A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das Leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".


A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos tinham conquistado antes a sua independência, mas meio milhão de escravos trabalhavam nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava do Haiti, ninguém vendia, ninguém reconhecia a nova nação.


O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar conseguiu reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. A essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perda por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Eduardo Galeano


Com o quadro Vol de zombies de Hector Hyppolite (1894 - 1948), do acervo do Museu Nacional de Arte do Haiti.

(Valeu, Edu Rangel: o texto é realmente ótimo!)