quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Chuva de janeiro


A vida é excessiva
como um aguaceiro.
Vou de pés molhados
e na contra-mão
nas ruas inundadas
do meu coração.


Lêdo Ivo, em O soldado raso


Com imagem capturada no Bonito isso.
Só que lá tá em movimento, aqui eu não consegui... :-(

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Por um lindésimo de segundo

tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas


Paulo Leminski, em Distraídos venceremos

Simples assim:



Vi no Palavra Aguda.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"O pior dos temporais aduba o jardim"



Viva Sérgio Sampaio!

Quer ver?

Escuta.


Francisco Alvim, em Poemas (1968-2000)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

De desejo somos





















A vida, sem nome, sem memória, estava sozinha. Tinha mãos, mas não tinha em quem tocar. Tinha boca, mas não tinha com quem falar. A vida era uma, e sendo uma era nenhuma.
Então o desejo disparou sua flecha. E a flecha do desejo partiu a vida pela metade, e a vida tornou-se duas.
As duas metades se encontraram e riram. Ao se ver, riam; e ao se tocar, também.

Eduardo Galeano, em Espelhos - Uma história quase universal

domingo, 27 de dezembro de 2009




















Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Fernando Pessoa

sábado, 26 de dezembro de 2009

Playing For Change: a paz através da música



Playing For Change: Peace Through Music, projeto criado por Mark Johnson, propõe usar a música como "liga" entre os povos, lembrando-nos de que somos todos da mesma raça... humana!

Veja também a inspiradora interpretação coletiva de Stand by me.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Antes que o homem faça, é necessário que sonhe
















"A convenção do calendário nos adverte de que demos mais uma volta em torno do sol, é costume fazer do ano a vir pequena e temporária utopia. Por mais pessoal que seja,  nos limites das próprias aspirações, sabemos que não a edificaremos sem a contribuição dos outros. Não há ser que possa viver absolutamente só. Para ganhar na loteria, esse sonho de alforria econômica e social, é preciso que outros apostem. É assim com tudo: o êxito das nossas empresas, a paz familiar, a alegria do reconhecimento alheio de nossas possíveis virtudes. E não é preciso falar nos sentimentos da amizade e do amor. Indivíduo é aquele que não pode ser dividido por outro, mas que pode e deve dividir-se, para multiplicar-se em seus atos e em seus
sentimentos. Ele se faz a partir dos outros, e sua inteligência, quaisquer que sejam os limites dos próprios atos e do conhecimento adquirido, irá influir sobre as pessoas com as quais conviva ou possa comunicar-se.

É raro pensar nessas coisas óbvias, exatamente porque são tão óbvias.

De forma quase natural aproveitamos estes dias de renovação da esperança para a confraternização. É o retorno à utopia maior, a da paz.

Quando passarem estas horas, voltaremos à guerra de todos contra todos, ou de quase todos contra todos, porque felizmente há quem resista, quem mantenha na alma a chama da solidariedade.

(...)

Mas as utopias são necessárias. Ao tentar realizá-las, as sociedades avançam. Assim foi possível abolir a escravidão, universalizar-se o ensino, melhorar o nível de vida e da saúde para grande parte da humanidade. Antes que o homem faça, é necessário que sonhe."


Mauro Santayana, em As convenções do calendário, publicado no Jornal do Brasil em 25 de dezembro de 2009.

Valeu, Silvio!














Eu quero apenas olhar os campos,
Eu quero apenas cantar meu canto,
Eu só não quero cantar sozinho,
Eu quero um coro de passarinho,
Quero levar o meu canto amigo,
A qualquer amigo que precisar.

Eu quero ter um milhão de amigos
E bem mais forte poder cantar

Da música Eu quero apenas, de Roberto e Erasmo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009




















No meio das trevas, sorrio à vida, como se conhecesse a fórmula mágica que transforma o mal e o trágico em serenidade e felicidade. Aí, procuro uma razão para esta alegria, não a acho e não posso deixar de rir de mim mesma. Creio que a chave do enigma é própria vida.

Rosa Luxemburgo

 Valeu, Sandroca!!! :-)


Meu presente de Natal para todos: um lindo curta, Deep & Crisp & Even, escrito por Peter Souter e dirigido por Brett Foraker! Sobre a moça que vivia em um mundo congelado...

Com os atores Timothy Spall e Natascha McElhone.

Valeu, Luiz! Achei tão lindo que resolvi compartilhar!!! ;-)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O tempo da delicadeza



Cena final de Luzes da cidade, de Charles Chaplin: a moça, antes cega, reconhece pelo toque das mãos seu benfeitor, que ela supunha rico e belo.

Lindo.

domingo, 20 de dezembro de 2009




















dia
dai-me
a sabedoria de caetano
nunca ler jornais
a loucura de walter franco
ter sempre uma cabeça a mais
a fúria de décio
nunca fazer versinhos normais
nunca me sentir insultado
com os golpes do acaso ou do destino

dai-me
ou eu consigo sozinho

 
Paulo Leminski (1979), publicado em Envie meu dicionário

sábado, 19 de dezembro de 2009

My Generation



O documentário The kids are allright (1979), dirigido por Jeff Stein, mostra shows, videoclipes e entrevistas do The Who realizados entre 1965 e 1978.

Esse é o trecho inicial do filme: uma apresentação de My Generation, ao mesmo tempo hilária e clássica!

Trata-se de uma participação do The Who no The Smothers Brothers Comedy Hour, na televisão americana em 1967. Tommy Smothers, da dupla folk-comediante The Smothers Brothers, havia presenciado a incrível performance do The Who no Festival Pop de Monterey, naquele ano, e convidou-os a aparecer em seu programa de variedades. O Who no entanto não seguiu o script e, para completar, o impagável Keith Moon subornou o contra-regra para que ele dobrasse os explosivos do final combinado, que ficou então bem mais apoteótico. Quando detonada, a explosão pegou bem no ouvido de Pete Townshend e ainda incendiou seu cabelo (dá pra ver ele apagando as faíscas), além de lançar um fragmento que cortou o braço de Keith. Roger Daltrey conta a história de que a atriz Bette Davis, esperando nos bastidores o momento de sua participação no programa, teria desmaiado nos braços do ator Mickey Rooney. Essa foi a única aparição do The Who em um show de variedades norte-americano...  :-)
“Entendi que a vida não tece apenas uma teia de perdas mas nos proporciona uma sucessão de ganhos. O equilíbrio da balança depende muito do que soubermos e quisermos enxergar.”

Lya Luft, em Perdas e ganhos

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pra sempre Mutantes



Assisti ao documentário Loki, que faz jus à genialidade de Arnaldo Batista.
Aqui, um pouco d'Os Mutantes, em 1969, cantando Fuga Nº2.

Hoje eu vou fugir de casa
Vou levar a mala cheia de ilusão
Vou deixar alguma coisa velha
Esparramada toda pelo chão
(...)

O sinal está vermelho e os carros vão passando
E eu ando, ando, ando
Minha roupa atravessa e me leva pela mão

 
Linda letra!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

















Você não sente, não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer


Trecho de Velha roupa colorida, de Belchior

Ouça aqui, na interpretação inesquecível de Elis Regina.

A minha na sua

Como se entra na vida do outro?
Por uma fresta do olho ou do coração?
Como um sopro de vida ou furacão?
Como uma fagulha ou por esbarrão?
Por descuido ou por atração?
Por coragem ou por medo do não?

Como se sai da vida do outro?
Olha-se o mar aberto,
E empreende-se intensa natação.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

"Everybody, let's rock!"



Sensacional apresentação de Elvis em 1968, cantando Jailhouse Rock, música de Jerry Leiber e Mike Stoller.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009



“Cumpre-lhes recusar os limites de sua situação e
procurar abrir para si os caminhos do futuro.
A resignação não passa de uma demissão e de uma fuga.”

Simone de Beauvoir

Com foto de Elliot Erwitt (Paris, 1949).

Leite de pedra

O apressado come cru
O curioso come sashimi

Mauro Santa Cecília, em Olho frenético

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

I don't like mondays



Bob Geldof foi vocalista da banda irlandesa Boomtown Rats (1975-1984), um grupo de punk rock/new wave. O primeiro sucesso internacional deles aconteceu em 1979, com I don't like mondays, uma música controvertida, sobre a tentativa de massacre feita por uma jovem americana contra crianças de uma escola na Califórnia, naquele mesmo ano.

Bob Geldof foi também ator do filme Pink Floyd - The Wall, versão cinematográfica feita para o clássico disco do Pink Floyd, dirigida por Alan Parker, no ano de 1982.

Em 1985, Bob Geldof foi idealizador do lendário festival Live Aid, com o objetivo de arrecadar fundos para as vítimas da fome na Etiópia. Os concertos foram realizados no Wembley Stadium em Londres (com uma platéia de aproximadamente 82 mil pessoas) e no John F. Kennedy Stadium na Filadélfia (aproximadamente 99 mil pessoas). Foi uma das maiores transmissões de televisão por satélite de todos os tempos. Estima-se que 1,5 bilhão de espectadores, em mais de 100 países, tenham assistido à apresentação ao vivo. O montante final arrecadado superou em muito as expectativas iniciais de 1 milhão de libras: estima-se que tenha ultrapassado os 150 milhões de libras (aproximadamente 283,6 milhões de dólares). Em reconhecimento a seus esforços, Geldof foi posteriormente condecorado com a ordem de Cavaleiro do Império Britânico.

Ainda hoje Geldof tem importante atuação junto a causas humanitárias e é conhecido por não medir suas palavras, doa a quem doer.

E estava eu aqui com alguns pensamentos não tão nobres (rs rs), chegando à conclusão de que Geldof e Hugh Laurie (o ator do seriado House) são dois dos homens mais charmosos do mundo, quando encontrei isso: um vídeo com I don't like mondays e imagens do doutor House!!!

:-)

Quer continuar a se divertir? Se você é tão fã de House e The Who quanto eu, vai gostar dessas versões com Behind blue eyes e Baba O'Riley.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Uma coisa é um homem, por engano, dirigir seu carro para a casa antiga, mas é algo bem diferente, eu creio, ele não reparar que as coisas mudaram dentro da casa. Mesmo a mente mais cansada ou distraída preserva um reduto de reações puras, animais, e consegue transmitir ao corpo a sensação do local onde está. Seria preciso estar quase inconsciente para não enxergar, ou pelo menos não sentir, que a casa já não era a mesma de antes. “O hábito”, como diz um dos personagens de Beckett, “é um grande entorpecente.” E se a mente é incapaz de reagir diante de uma evidência física, o que fará ao se confrontar com uma evidência emocional?

Paul Auster em A invenção da solidão

Tava lá no (o grifo é meu).
"Gente é pra brilhar,
Não pra morrer de fome"

Da música Gente, de Caetano Veloso

E eu acrescentaria: seja fome do que for...

;-)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Another saturday night!!!



Cat Stevens: astral total!

Autocomiseração

Nunca vi algo selvagem
tendo pena de si mesmo.
Cai um pássaro morto de frio de um galho
sem nunca ter tido pena de si mesmo.


Self-Pity
I never saw a wild thing
sorry for itself.
A small bird will drop frozen dead from a bough
without ever having felt sorry for itself.

D.H. Lawrence

Vi no Palavra Aguda.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Walk on the wild side!!!



Não preciso dizer nada. Lou Reed diz tudo!

E esse é o simpático clip produzido por Monica Bielanko, a partir de suas próprias fotos e vídeos.

No Youtube há vários clips para essa música, inclusive um interesante trecho de gravação feita pela TV alemã em 1976: veja aqui.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

HAIR!



Meu filme preferido, minha cena preferida.



Hair (1979), dirigido por Milos Forman,
coreografado pela fantástica Twyla Tharp.

Adaptação para o cinema da revolucionária peça teatral de 1968.
“Refletir é transgredir a ordem do superficial.”

Lya Luft, em Perdas e Ganhos

terça-feira, 8 de dezembro de 2009


– E, como sou filósofa – continuou Emília –, quero que minhas Memórias comecem com a minha filosofia de vida.

– Cuidado, marquesa! Mil sábios já tentaram explicar a vida e se estreparam.

– Pois eu não me estreparei. A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda até que dorme e não acorda mais. É portanto um pisca-pisca.

O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos no teto.

Emília riu-se.

– Está vendo como é filosófica a minha ideia? O Senhor Visconde já está de olhos parados, erguidos para o forro. Quer dizer que pensa que entendeu… A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre? – perguntou o Visconde.

– Depois que morre vira hipótese. É ou não é?

 
Monteiro Lobato, em Memórias da Emília
 
Agradeço ao pessoal do (o grifo é meu) por me lembrar de tão maravilhosa passagem.

E viva Monteiro Lobato!


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Fred & Ginger!!!



Fred Astaire e Ginger Rogers no filme Roberta, de 1935. Lindos.

Versículo 2

Não sou alegre
Nem sou triste
Sou profeta

Sou pregador
de cabelo
que se soltou
e deixou
a mecha
voar ao vento

Sou santa
paciência
que se esgota
sou a marmota
na moita
que se esconde
do caçador

Sou seu amor
sou seu desatino
sou seu hino
seu fado
safada
cefaléia
na sua sua cabeça
sou sua enxaqueca
sua cibalena
sou cantilena
terço
seu quarto
de ácido
sulfúrico
sua paixão
de cristo
cristão
judeu
muçulmano
que espécie de mártir
sou eu?

se meu
martírio
é só pra te salvar...

Do Evangelho segundo Mathilda Kóvak

domingo, 6 de dezembro de 2009

Ler é a maior viagem!



Sensacional! Vi no sempre instigante Professor Texto, que explica:

"Livros dão vida a histórias por meio da imaginação. Partindo desse pressuposto, Andersen M Studio criou a animação para a New Zealand Book Council, uma organização da Nova Zelândia que promove livros e seus escritores, e ainda incentiva a leitura. A animação usou por volta de 3.000 imagens para seus um pouco mais de 2 minutos e mostra, através de páginas de um livro, o conto Going West de Maurice Gee ganhando vida. É como aqueles cartões pop-up caríssimos que vendem nas papelarias, mas nesse caso, as imagens contam uma história. Além da internet, o filme está sendo exibido nos cinemas da Nova Zelândia e também foi lançado em DVD como parte do pacote promocional do filme Under the Mountain."

sábado, 5 de dezembro de 2009

"Sooth your pain", por Dub Fx



O australiano Dub Fx utiliza pedais de efeito e loops para criar camadas sonoras e construir músicas, usando apenas sua voz. Ele viaja pelo mundo, apresentado-se nas ruas.
Para conhecer mais, clique aqui.

Dica do Godum, sempre ligado!

Inscrição para um tapume

Desejo tudo quando nada quero.
Estar longe é o meu modo de estar perto.
Por mais que invente, sempre sou sincero.
Quanto mais sonho, mais estou desperto.

Lêdo Ivo, em O soldado raso

Elis Regina!!!



Maravilhosa apresentação de Elis Regina em 1972.
Até onde dá para perceber, parece que é um programa da RAI italiana.

(com Elis, até bossa nova fica bom!)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Qual a coisa mais importante do mundo?

Clarice Lispector: Hélio, diga-me agora, qual a coisa mais importante do mundo?
Hélio Pellegrino: A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo – Deus comigo. O amor ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Stevie Wonder em Vila Sésamo!!!



Stevie Wonder + Superstition + Vila Sésamo = alegria total!

Reparem no garotinho de blusa laranja dançando amarradão no alto da varandinha! ;-)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Jeff Buckley em "Hallelujah"



Maravilhoso.

E para quem não conhece: em 1997, aos 31 anos, Jeff Buckley morreu afogado no rio Wolf, afluente do rio Mississipi.  Músico fantástico, merece ser conhecido.

Valeu, Estela!

Mapa astral

Há registro de alguém que tenha contrariado a determinação dos astros?
E se eu seduzir as cartas do tarô?
E se com as linhas da mão eu traçar outro caminho?
Sou humana, demasiadamente humana.
E hoje acordei com uma raiva danada de você.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009



Com efeito por momentos o silêncio é tal que a terra parece não ter quem a habite. Aqui está até onde leva o amor pelas generalizações. Basta não ouvirmos, no nosso buraco, durante alguns dias, outro ruído diferente do das coisas, para começarmos a julgar-nos o último exemplar do gênero humano. E se me pusesse a gritar? Não é que queira chamar as atenções sobre mim, mas só para tentar descobrir se há alguém. Mas não gosto de gritar. Falei baixinho, movi-me devagar, sempre, como convém a quem nada tem a dizer nem sabe para onde ir. Sem contar que pode muito bem não haver ninguém num raio de cem passos, e a seguir uma população tão densa que as pessoas andem umas por cima das outras. Ninguém se atreve a aproximar-se. Nesse caso esfalfar-me-ia em pura perda. Apesar de tudo vou tentar. Tentei. Nada ouvi de insólito. Sim, uma espécie de rangido escaldante ao fundo da traquéia como quando se tem azia. Com o treino talvez ainda acabe por fazer um gemido. O melhor seria dormir. Infelizmente já não tenho sono. De resto não devo dormir mais. Que maçada. Perdi o comboio.

Samuel Beckett, em Malone morre

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A propósito da mente brilhante de Tarantino



Tarantino's mind (Brasil, 2007)
Roteiro e direção: 300 ml
Atores: Selton Mello e Seu Jorge

Uma ótima idéia, com atores idem. ;-)

domingo, 29 de novembro de 2009

"Fez do seu caminho
Sua maior riqueza"

Da música Tiro de largada, de Flávio Guimarães
(do excelente cd Cor do Universo, do Blues Etílicos)

sábado, 28 de novembro de 2009

Lasse Gjertsen em "Amateur"



Segundo o próprio Lasse Gjertsen, ele toca tanto quanto eu. Ou seja: nada! Aqui é tudo edição. Sensacional! Quer continuar a se divertir? Clique aqui.

Dica do meu irmão, also known as Godum.

Em tempo: o norueguês não toca, mas FAZ música!
SENTIDO NÃO TEM DIREÇÃO.

(li num muro de Santa Teresa)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

"Beat it", com Pomplamoose



Pomplamoose é uma banda californiana, formada pelos namorados Jack Conte e Nataly Dawn. O que eles fazem é chamado de VideoSong, ou seja, tudo o que você ouve é o que você vê. Todos os sons das músicas são criados por eles e mostrados no vídeo. É quase um making of de como se constrói uma música. Aqui, a versão de Beat it, de Michael Jackson. Mas vale ver também September (do Earth, Wind and Fire), Single ladies (gravada por Beyoncè) e Mr Sandman (The Chordettes), entre outras versões.

Se preferir, veja direto do Youtube, pois aqui o quadro está cortado.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Let's rock!


Para quem gosta de rock n' roll, vale entrar no site England rocks. Além de conhecer os lugares do rock na Inglaterra, vai encontrar jogos divertidos como o Beat the intro, uma espécie de Qual é a música?. Acertei TODAS do Led Zeppelin!!! :-)

Dica da Teca!

Noite carioca



Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo.
Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Ana Cristina Cesar, em A teus pés

"Romeu e Julieta", por Béjart



Com Suzanne Farrell e Jorge Donn. Música de Hector Berlioz.

Lembrança inesquecível: em meados dos anos 1970, assistí a essa maravilha no Maracanãzinho, com minha mãe. Eu era criança e ainda não havia visto tanta beleza. Emocionante.

Jorge Donn (1947-1992) é para mim o melhor bailarino do mundo. E de Béjart (1927-2007) sou devota.

;-)

PS: esse post é para Cássia, cuja vida também foi encantada por Béjart.

domingo, 22 de novembro de 2009

Vida de clichê



"Quando nos expressamos por palavras, temos sempre a possibilidade de nascer. E se renunciamos ao nascimento, ao trocar a possibilidade do novo pelos chavões, aceitamos a morte antes de viver? Fiquei pensando nisso. Parece-me que os lugares-comuns vão muito além das palavras. A gente pode transformar nossa vida inteira num clichê. Não basta apenas pensar antes de escrever, na tentativa de criar algo nosso. É preciso pensar para viver algo nosso – antes de repetir a vida de outros. Do mesmo modo que é mais fácil botar no mundo o primeiro chavão que nos vem à cabeça, também é mais fácil – e mais aceito – viver segundo os clichês da nossa família, sociedade, época. Penso que a maioria de nós vai vivendo e repetindo velhas vidas que aparentemente já deram certo e não incomodam ninguém. (...) A vida que se vive para longe dos clichês não tem garantias. Tem vida. Tudo o que a vida que se vive para longe dos clichês nos oferece é isso, vida apenas."

Eliane Brum

Clique aqui e leia na íntegra o já citado texto de Eliane Brum, publicado na revista Época em 24/08/2009.

sábado, 21 de novembro de 2009

Felicidade



"Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda mais; contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos, sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está à espera de que alguma coisa... divina aconteça. Ela sabia que iria acontecer infalivelmente."

Trecho de Bliss, de Katherine Mansfield, que você pode ler inteiro clicando aqui.
Li no inspirado e inspirador Fala comigo doce como a chuva.
Aqui, com a beleza do quadro de Beatriz Milhazes.

O canto do retardatário

Pouco importa que o canto seja tardio.
Se não tinha amadurecido, inda não era canto.
A idade do poeta se mede pelo amadurecimento do canto.
Cantar não é desejar a glória,
É simplesmente cantar.
A gente nasce para viver,
O canto rompe para vibrar.
O resto é com quem ouve,
O poeta não tem nada com isso.
Já houve um santo que falou às aves.
Mas eu sou ave, canto para as árvores.
— Árvores, ouvi-me!

Ernani Sátiro

E imaginar que eu publicaria poesia de quem foi da UDN, da Arena e do PDS, além de ter sido nomeado ministro do Supremo Tribunal Militar por Costa e Silva e de ter sido líder do governo militar na Câmara! Em 1984, foi um dos que se ausentou do plenário da Câmara na votação da emenda Dante de Oliveira, pelas eleições diretas, que assim acabou derrotada, por falta de apenas 22 votos. Não gosto de sua biografia. Mas gosto do poema.

Nina Simone em "Don't let me be misunderstood"



A propósito do Dia da Consciência Negra, comemorado ontem (20 de novembro), volto a Nina Simone. O vídeo acima mostra imagens da luta contra o racismo nos Estados Unidos, nos anos 1960, e é embalado pela linda interpretação de Nina para Don't let me be misunderstood.

Nos anos 1960, a americana Nina Simone (1933-2003) participou ativamente do movimento negro e do movimento pelos direitos civis em seu país. Nina compôs Mississipi Goddam após o atentado a bomba contra uma igreja batista no Alabama, que vitimou quatro meninas, e após o assassinato do líder negro Medgar Evers no Mississipi. Ambos os atentados ocorreram em 1963 e foram de autoria da Ku Klux Klan. Essa música, sempre cantanda nos contextos de luta pelos direitos civis, pouco tocou no rádio.

Nina escreveu outras músicas adotadas pelo movimento pelos direitos civis, como Backlash Blues,Old Jim Crow, Four Women e To Be Young, Gifted and Black. Essa última foi composta para sua amiga Lorraine Hansberry, escritora e dramaturga, também atuante contra a discriminação racial nos Estados Unidos.

"Oh but my joy of today
Is that we can all be proud to say
To be young, gifted and black
Is where it's at"

(trecho de To Be Young, Gifted and Black, que você pode escutar na voz de Nina, ao vivo em 1969, clicando aqui)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nick Drake em "Day is done"



Do álbum Five Leaves Left, de 1969.

Nick Drake, cantor e compositor britânico, gravou poucos discos e morreu aos 26 anos. Seu álbum Pink Moon figurou em 320º lugar numa lista da Rolling Stone que elegeu, em 2006, os 500 maiores discos de todos os tempos.

"É conhecida a história de que, em 1971, ao terminar de gravar o álbum Pink Moon, Nick Drake teria ido à gravadora Island Records e deixado as fitas mestras sobre a mesa de uma recepcionista sem dizer coisa alguma a ninguém. O álbum ficou lá ignorado pelos dias até a semana seguinte, quando alguém o notou."
Do texto de Priscilla Santos publicado no obvious. Clique aqui para lê-lo na íntegra.

Nina Simone em "If you knew"



Lindo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

É bom viver?

Clarice Lispector: Hélio, é bom viver, não é?
Hélio Pellegrino: Viver, essa difícil alegria. Viver é jogo, é risco. Quem joga pode ganhar ou perder. O começo da sabedoria consiste em aceitarmos que perder também faz parte do jogo. Quando isso acontece, ganhamos algo extremamente precioso: ganhamos nossa possibilidade de ganhar. Se sei perder, sei ganhar. Se não sei perder, não ganho nada, e terei sempre as mãos vazias. Quem não sabe perder, acumula ferrugem nos olhos, e se torna cego – cego de rancor. Quando a gente chega a aceitar, com verdadeira e profunda humildade, as regras do jogo existencial, viver se torna mais do que bom – se torna fascinante. Viver bem é consumir-se, é queimar os carvões do tempo que nos constitui. Somos feitos de tempo, e isso significa: somos passagem, somos movimento sem trégua, finitude. A cota de eternidade que nos cabe está encravada no tempo. É preciso garimpá-la, com incessante coragem, para que o gosto do seu ouro possa fulgir em nosso lábio. Se assim acontece, somos alegres e bons, e a nossa vida tem sentido.

Citado no instigante artigo Vida de clichê, de Eliane Brum, publicado na revista Época em 24/08/2009. Clique aqui para ler o texto.

Em tempo: esse é um trecho da entrevista de Hélio Pellegrino a Clarice Lispector. Que encontro! Para conhecer a atuação de Clarice como jornalista, leia aqui. Para saber mais sobre as entrevistas realizadas por ela, veja aqui. E dica imperdível: o livro Clarice Lispector - Entrevistas, publicado pela Editora Rocco.

Máquina de escrever



Meu coração é uma máquina de escrever
As paixões passam, as canções ficam
Os poemas respiram nas prisões
Pra ler um verso, ouvir
Escutar meu coração falar
Até se calar a pulsação
Meu coração é uma máquina de escrever
No papel da solidão
Meu coração é
Da era de Gutemberg
Meu coração se ergue
Meu coração é
Uma impressão meu coração
Já era
Quando ainda não era a palavra emoção
Mas há
Palavras em meu coração
Letras e sons
Brinquedos e diversões
Que passem as paixões
Que fiquem as canções
Nos poemas nos batimentos das teclas da máquina de escrever
Meu coração é uma máquina de escrever ilusões
Meu coração é uma máquina de escrever
É só você bater
Pra entrar na minha história.
 
De Mathilda Kóvak e Luís Capucho

"While my guitar gently weeps", por George Harrison



Essa é uma de minhas músicas preferidas. Aqui, tocada por George Harrison durante o famoso Concerto por Bangladesh, em 1971. Organizado por Harrison e Ravi Shankar, foi o primeiro evento beneficente desse porte na história e contou com vários artistas consagrados, como Bob Dylan, Eric Clapton, Ringo Starr e Leon Russel. Aliás, e até onde consegui reconhecer, Clapton, Ringo e Russel aparecem tocando aí.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mocidade independente


Pela primeira vez infrigi a regra de ouro e voei pra cima sem medir as consequências. Por que recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por você, furiosa: é agora, nessa contramão.

Ana Cristina Cesar, em A teus pés

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A queda do Muro de Berlim: 20 anos



No dia 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim começou a ser derrubado. Chegava ao fim o maior símbolo da Guerra Fria. Nesse vídeo do site da revista Time, o fotógrafo Anthony Suau conta como foi ver a história mudar seu curso.

Já no Spiegel Online vale ver as galerias de fotos: O dia em que o Muro de Berlim caiu e O Muro de Berlim, ontem e hoje.

No Let's blogar, um slideshow conta a história do muro através de fotografias.

Metas de consumo

Seus planos de energia solar em sua casa,
e o meu coração em autocombustão.

A vida é pra gastar a vida.

As cidades e o desejo

Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que às vezes se diz maligno e outras vezes benigno: se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágatas ônix crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo.

Italo Calvino, em As cidades invisíveis

domingo, 15 de novembro de 2009

Tem coisas que só um japonês faz pra você



Sen-sa-ci-o-nal! Esse vídeo do Sour foi filmado exclusivamente com webcam e o "elenco" é todo de fãs da banda.
Vi no blog da Lápis Raro, agência de comunicação mineira. É deles também o título do post!

Dillo D'Araújo em "No fundo do mar"



Excelente interpretação de Dillo e a Gangue para a música de João Donato e Joyce, com a participação de Paula Nunes (vocal) e Pedro Strasser (bateria).

Também da série "Porque me ufano dos meus amigos..." ;-)

Humano, demasiadamente humano...


Vi no Um sábado qualquer, do divertido Carlos Ruas.
Para ver maior, clique na imagem.

Como dois e dois



Maravilhosos. Quase um blues tropical.

Para pensar no 15 de novembro (II)

"Os que querem tratar separadamente a política e a moral jamais compreenderão nada de nenhuma das duas."

Jean-Jacques Rousseau, em Emílio

Big Mama Thornton em "Hound Dog"




Willie Mae "Big Mama" Thornton (1926 – 1984) foi a primeira a gravar o hit "Hound Dog", em 1952.

Clique nos links para saber mais! ;-)

Nesse vídeo de 1965 ela é acompanhada por Buddy Guy.

Ah: clique aqui e veja também a ótima interpretação de John Lennon para essa música, ainda que com a terrível participação de Yoko Ono! (Aliás, alguém pode me explicar o que é Yoko Ono?!?!? rs rs rs...  Ainda bem que no vídeo de Instant Karma eles deram um jeito de entretê-la com o tricô... veja aqui! rs rs)

Para pensar no 15 de novembro

"O verdadeiro cidadão não é o que vive em sociedade, é aquele que transforma a sociedade."

Augusto Boal, no filme Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler

sábado, 14 de novembro de 2009

Rapsódia do Absurdo



O curta-metragem Rapsódia do Absurdo, de Cláudia Nunes, é um documentário sobre as reformas agrária e urbana, com cenas de arquivo de dois marcantes episódios de luta pela terra: Fazenda Santa Luzia e Parque Oeste Industrial, cuja dimensão os torna exemplos universais do conflito entre a propriedade privada e os pobres do mundo. O filme já recebeu mais de 20 prêmios, entre festivais nacionais e internacionais.

Você pode assistí-lo também no site do festival internacional ‘Humanity Explored’, onde encontrará outros filmes interessantes sobre as questões sociais de nosso tempo.

Ah: o presente post é da série "Parentes que me enchem... de orgulho!". ;-)

PS: tem dia que o site cultureunplugged.com dá problema e o vídeo some aqui do blog... não desista: volte outro dia, pois vale muito a pena ver o Rapsódia do Absurdo.


Depois ela pergunta: Você quer o quê?
Você diz que quer experimentar, tentar a coisa, tentar conhecer isso, habituar-se com isso, com esse corpo, com esses seios, com esse perfume, com a beleza, com esse perigo que esse corpo representa de colocar no mundo crianças, com essa forma imberbe sem acidentes musculares nem força, com esse rosto, com essa pele nua, com essa coincidência entre essa pele e a vida que ela recobre.
Você diz a ela que você quer experimentar, experimentar vários dias talvez.
Talvez várias semanas.
Talvez inclusive durante toda sua vida.
Ela pergunta: experimentar o quê?
Você diz: Amar.

Marguerite Duras, em A doença da morte

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Utopia e Barbárie



Numa tarde de 1984, fui ao cinema assistir ao documentário Jango, de Silvio Tendler. Tinha 16 anos e ali foi despertado - definitivamente - meu interesse pela história. Saíamos então da ditadura militar e o filme de Silvio descortinava, para uma jovem como eu, fatos e versões, ou seja, a visão de que não só as narrativas históricas podiam ser diversas, mas também o entendimento de que a própria história encerra em si múltiplas possibilidades, e que ela poderia ter sido diferente... (ou, ainda, que ela poderia ser diferente...) O cineasta, que viveu a "geração 68" integralmente, havia sonhado utopias e visto barbáries. No maio de 1968 em que eu nascia, o rapaz de 18 anos tornava-se cronista da história. Uma história que, naquele momento, era embalada por lemas libertários. Pano rápido: o mundo deu voltas, muitas. Utopias e barbáries. Muitas. Hoje, dia 13 de novembro de 2009, acabo de ver o novo filme de Silvio pela décima vez, resultado da sorte de ter participado, ainda que pontualmente, da sua produção. A cada vez que assisto a Utopia e Barbárie fico emocionada. De sua origem no Latim, emocionar-se quer dizer que ficamos movidos para fora de nós mesmos. Tomara que vocês vejam esse filme. Tomara que se emocionem. Tomara que fiquem tocados a buscar caminhos para fora de si e na direção do outro, fraternalmente. Como bem diz o poeta Ferreira Gullar no filme, uma vez que a vida é finita, é no outro que teremos continuidade. Salve, Silvio, seu filme inspira! Ecoam suas palavras: "Solta o coração e vai!".

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Um segredo

Só para ti floresço,
disse a dália amarela
ao me ver passar.
E eu guardei um segredo
coberto de orvalho.

Lêdo Ivo, em O soldado raso

A imaginação conhece tudo, menos limites!



Conheça aqui a sensacional animação de Blu e David Ellis, produzida pelo Studio Cromie.
Totalmente demais!

Dica do meu super-irmão Eduardo Siqueira!!  :-)

Oren Lavie em "Her morning elegance"



Esse é um dos vídeos mais legais que já vi!
Oren Lavie é um artista israelense: cantor e compositor, além de autor e diretor de teatro.
Sua voz me lembra a de Nick Drake.

Esse clip "bombou" total. Em seu site, Oren Lavie comenta, com humor, a surpresa da escolha dessa música como trilha de um comercial da Chevrolet nos Estados Unidos, uma vez que o álbum havia vendido pouquíssimas cópias:

"O autor, que nunca teve um carro em sua vida e que sempre ignorou do fundo do coração a invenção do aparelho de televisão, não pôde deixar de gargalhar por vários dias. Com uma canção no coração, ele continua a pegar ônibus."

O silêncio

O silêncio é bom.
O silêncio é bálsamo.
Ele nos faz retomar os caminhos
Que a tagarelice dos seres
Confunde com seu demente ruído existencial.
O que chamamos de mundo é muito maior do que podemos pensar.
Entremos portanto no silêncio.
Esperemos a poeira baixar.
Pois é essa a natureza da poeira, cair.
E fica o chão, onde as marcas das histórias
narram as verdades do tempo
no papiro de cimento
sempre
para sorte da humanidade.

Que o silêncio nos abençoe de maneira imensa.
Eu preciso dele.

(palavras de G., que optou pelo silêncio)

Salve, Cássia!



E vendo Melissa Etheridge lindamente careca, lembrei de Cássia nesse vídeo, cantando Rubens, fantástica música de seu primeiro disco.
O tempo é um lugar que não existe quando escuto Cássia e Janis... e desconfio que é na música que a humanidade se salva...
;-)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Janis vive!!!



Na próxima encarnação, posso ser a Joss Stone, com essa voz, esse cabelo, esse vestido e cantando Janis com a maravilhosa Melissa Etheridge?? Posso?? :-)

The answer is blowin' in the wind...




1963: Bob Dylan, com The Freedom Singers, Joan Baez, Peter, Paul & Mary no Newport Folk Festival.

Com criatividade, o tempo das coisas não passa: ele ultrapassa!



A agência de publicidade TBWA do Uruguai encontrou um jeito diferente para promover as tradicionais canetas Bic. Produziu um número inteiro da revista Freeway (bastante popular entre os jovens) todinho escrito e ilustrado em caneta Bic. A ação rendeu um prêmio “El Ojo” em inovação no uso dos meios.

Vi no ótimo Let's Blogar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O poeta está vivo

Baby, compra o jornal
E vem ver o sol
Ele continua a brilhar
Apesar de tanta barbaridade

Baby, escuta o galo cantar
A aurora dos nossos tempos
Não é hora de chorar
Amanheceu o pensamento

O poeta está vivo
Com seus moinhos de vento
A impulsionar
A grande roda da história

Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento

Se você não pode ser forte
Seja pelo menos humana
Quando o Papa e seu rebanho chegar
Não tenha pena

Todo mundo é parecido
Quando sente dor
Mas nú e só ao meio-dia
Só quem está pronto para o amor

O poeta não morreu
Foi ao inferno e voltou
Conheceu o Jardim do Édem
E nos contou

Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento

Roberto Frejat e Dulce Quental (ouça aqui)

Duração

Aconteceu há mil anos
Continua acontecendo
Nos mais desbotados dos panos
Estou me lendo e relendo.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"Os três porquinhos", como você nunca ouviu!



Entre no site do El Ojo de Iberoamerica (clique aqui) e ouça as hilárias versões para uma velha história!
Ou veja no youtube: tem a versão "mano", a versão "Chavez", a versão "carioca", e por aí vai... rs rs rs
Divirta-se!

Tocando em frente

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei
(...)
Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
e no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

Almir Sater (ouça aqui)
"é sempre o mesmo céu e não é nunca o mesmo céu"

Samuel Beckett, em Primeiro amor

Eles são jovens e sem cortes!



Muito bom! Nesse vídeo, feito por  alunos de Comunicação de uma universidade canadense, 172 estudantes interpretam sem cortes, por todo o campus, a música I gotta felling do Black Eyed Peas.
Vi no Let's blogar.

domingo, 8 de novembro de 2009

Dizer o mundo


"Aprendemos palavras para melhorar os olhos."

Rubem Alves


Para conhecer A casa de Rubem Alves: clique aqui.

Edu Rangel em "Noves fora"



Também da série "Porque me ufano dos meus amigos..."  :-)

Conheça mais de Edu Rangel no myspace: clique aqui.

O olhar da alma

"Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e desobediência representa respeito.
Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma."

Nilton Bonder, em A alma imoral

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Black power é isso!



Poderosa, doce, bem-humorada: Elza Soares é fantástica!

A arte e a invenção do ser humano



"A criação literária e artística, ela é transformadora por essência. Ela não é só transformadora quando lida com problemas políticos e sociais. Ela é transformadora porque ela é constitutiva da humanidade do ser humano. A humanidade do ser humano é uma coisa inventada. Nós nascemos bichos, nós nascemos sem saber nada e só temos, potencialmente, essa qualidade de ser humano. Mas se for criado na selva, como "Jim da selva", vai virar macaco e não vai fazer nada (riso). Então, é a cultura, é o conhecimento, é a invenção que o ser humano faz de si mesmo que contribui para que exista a humanidade, a sociedade humana. Nisso a arte tem um papel fundamental. Ela é um dos instrumentos da invenção do ser humano, dele se inventar como gente. Ele pode se inventar melhor ou pior. O ser humano se inventa na tecnologia, na ciência, em tudo mais, mas sem a arte ele não seria o que ele é, nem a sociedade humana seria o que é. A arte é, por si só, transformadora e revolucionária."

Ferreira Gullar, em entrevista realizada por mim (!!) em 2004, para o projeto Memória do Movimento Estudantil.

Funky Brother Soul



Ainda a realeza negra: Gerson King Combo!
Com o auxílio luxuoso do mega-talentoso Funk como le gusta.

sábado, 31 de outubro de 2009

God save the queen: Nina!



Nina é... tudo!

God's Praxis

1.
Os prazeres do seres
humanos
são articulados por
memória e jogo.

2.
O esquecimento das regras
é fundamental de tempos
em tempos.

Mauro Santa Cecília, em A todo transe

When we were kings!




When we were kings (1996), documentário de Leon Gast, vale ser visto. Conta a história da famosa Rumble in the jungle: a luta entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire (hoje República Democrática do Congo), em 1974, pelo campeonato mundial de pesos-pesados. O desafio foi promovido pelo controvertido Don King e patrocinado pelo ditador Mobutu Sese Seko, que dominou o Zaire de 1965 a 1997 (sobre ele há também Mobutu, rei do Zaire, de Thierry Michel). O filme mostra Muhammad Ali no auge de seu carisma, protagonizando essa “viagem de volta às raízes africanas”. Vale lembrar que ele havia perdido o título de campeão mundial em 1967, por ter se recusado a ir para a Guerra do Vietnã. O filme tem entrevistas fantásticas, com Norman Mailer e Spike Lee, entre outros, e trechos do “black Woodstock”, o festival de música simultâneo à luta, que contou com nomes como James Brown e B.B.King (todo documentado no filme Soul Power, de 2008).

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Nau

Quer dizer: agora.

Usa-se para
os descobrimentos.

Sérgio Alcides, em Nada a ver com a lua

Estela Cassilatti em "Al"



Da série "Porque me ufano dos meus amigos..."
;-)

Conheça Estela Cassilatti no myspace: clique aqui.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pensando: as nossas contradições nada mais são do que a vida atuando sobre os nossos corações.
Do twitter do Palavra Aguda

Rhythm is love



"Rhythm is love
Heaven is just another world
For the feelin called
Musical"

Rhythm is love (Keziah Jones)

História da moça cega convertida à Igreja de Nova Vida



Eu a vi no trem do metrô, indo pra Pavuna. Fazia frio, fazia calor. Tudo depende de quem vê. A moça cega inspira pena, dó, compaixão. Mas a roupa que combina ensina que talvez ali não haja completa solidão. Seios fartos, cabelos negros e compridos. Não fosse cega, seria bonita. A cegueira, no entanto, é desproteção. E ela cresceu curvada, cresceu quase bicho. Num mundo de sons, cheiros e tatos. Mas sem olhares ou espelhos. A moça cega no trem do metrô. Nada vê? Tudo sabe? A moça cega é tão jovem que deve sonhar. Mas traz sombrancelhas que franzem até encontrarem-se na mais profunda circunspecção. A moça cega ouve uma voz Te quiero, como o som da novela no canto da sala, como o rádio cantando na cozinha. Te quiero, repete.

Na vida há mais do que dizemos a nós mesmos?

Te quiero, repete.



(com Moça diante do espelho, de Pablo Picasso)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009



uma grande nuvem rosa
roça a testa
do cristo redentor
nesse exato instante agora
a revolução sutil silenciosa
que jamais se pôde supor

Dado Amaral, em Olho nu
(com foto de Pedro Farina)

A cor púrpura da amizade



"Oh sister, have I got news for you
I´m somethin'
I hope you think
that you´re somethin' too"

Miss Celie's Blues (Quincy Jones)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A dor e a delícia de ser o que é



Na fantástica galeria One in 8 Million, organizada pelo The New York Times, pessoas comuns contam suas histórias. É o lado anônimo de Nova Iorque, em emocionantes e emocionadas narrativas. As (belas!) fotos são de Todd Heisler. Toda semana é atualizada com um novo personagem.
Vale a visita!

(vi no Let's blogar e no bonito isso:)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Ventania

 

O suspiro de amor
Vira sopro de vida.

domingo, 25 de outubro de 2009

Peace train!




Diante dos variados absurdos já tornados cotidianos, cada um faz seu protesto.



Fica aqui o meu em forma de esperança:

"Cause out on the edge of darkness, there rides a peace train
Oh peace train take this country, come take me home again"

Incenso fosse música

 

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski, em Distraídos venceremos

Dia da criação



Vou esculpir os dias
à minha imagem
e semelhança
que sejam belos
que sejam tristes
que sejam
dias
a mais
a menos
para quem
tanto faz
os dias
serão
a vida.

Sweet leaf



Alright now!
Won't you listen?

When I first met you, didn't realize
I can't forget you, for your surprise
You introduced me to my mind
And left me wanting you and your kind

I love you, Oh you know it

My life was empty, forever on a down
Until you took me, showed me around
My life is free now, my life is clear
I love you sweet leaf, though you can't hear

Come on now, try it out

Straight people don't know what you're about
They put you down and shut you out
You gave to me a new belief
And soon the world will love you, sweet leaf

Black Sabbath (pois os brutos também amam: veja aqui)

sábado, 24 de outubro de 2009

A linguagem é um barato



Viva Leminski, sempre!

Ô abre-alas...




Ninguém pode me abater
Nem vai me ferir

Cuidado oh montanhas!
Saiam do caminho
Ou serão abaladas e derrubadas sempre

Oceano abra-se agora
Ou seque, queime, evapore e vá embora

Poema budista (aprendido com o pessoal do Boato)

Simetria



Nunca tão curto
Que não alcance
Nunca tão longo
Que nos separe
O braço tem a extensão
Do encontro
Os ângulos têm a dimensão
Do encaixe
Tanta errância
Tanta estrada
Que no fim vai dar
Em caminho
Nunca tão curto
Que não alcance
Nunca tão longo
Que nos separe

Blufunk is a fact!



Keziah Jones: que bom que o meu tempo é esse!

Retira-se entulho


Retira-se entulho
Da terra prometida
E joga-se uma pá de cal
No que não deu
Prepara-se o terreno
Para receber da vida
O troco da passagem
Da viagem
Sem retorno
Sem sinal
E sem contorno
Que cada um escolheu

Pois é...



Entender é parede.
Procure ser uma árvore.

Manoel de Barros

Desenredo

Grande admiração me causam os navios
e a letra de certas pessoas que esforço por imitar.
Dos meus, só eu conheço o mar.
Conto e reconto, eles dizem ‘anh’.
E continuam cercando o galinheiro de tela.
Falo de espuma, do tamanho cansativo das águas,
eles nem lembram que tem o Quênia,
nem de leve adivinham que estou pensando em Tanzânia.
Afainosos me mostram o lote: aqui vai ser a cozinha,
logo ali a horta de couve.
Não sei o que fazer com o litoral.
Fazia tarde bonita quando me inseri na janela, entre meus tios,
e vi o homem com a braguilha aberta,
o pé de rosa-doida enjerizado de rosas.
Horas e horas conversamos inconscientemente em português
como se fora esta a única língua do mundo.
Antes de depois da fé eu pergunto cadê os meus que se foram,
porque sou humana, com capricho tampo o restinho de molho na panela.

Saberemos viver uma vida melhor que esta,
quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?
Sofrer não é em língua nenhuma.
Sofri e sofro em Minas Gerais e na beira do oceano.
Estarreço de estar viva. Ó luar do sertão,
ó matas que não preciso ver pra me perder,
ó cidades grandes, estados do Brasil que amo como se os tivesse inventado.

Ser brasileira me determina de modo emocionante
e isto, que posso chamar de destino, sem pecar,
descansa meu bem-querer.
Tudo junto é inteligível demais e eu não suporto.
Valha-me noite que me cobre de sono.
O pensamento da morte não se acostuma comigo.
Estremecerei de susto até dormir.
E no entanto é tudo tão pequeno.
Para o desejo do meu coração
o mar é uma gota.

Adélia Prado, em O coração disparado

Valeu



dois namorados
olhando o céu
chegam à mesma conclusão
mesmo que a terra
não passe da próxima guerra
mesmo assim valeu

valeu
encharcar este planeta de suor
valeu
encarar esta vida que podia ser melhor
valeu
esquecer as coisas que eu sei de cor

valeu
valeu

Paulo Leminski, em Envie meu dicionário

Sobre a leitura



“Não há talvez dias de nossa infância que tenhamos vivido tão plenamente quanto aqueles que acreditamos passar sem vivê-los, aqueles que passamos com um livro preferido. Tudo aquilo que parecia preencher os dias para os outros, e que nós descartávamos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: o jogo para o qual um amigo vinha nos chamar logo na passagem mais interessante; a abelha ou o raio de sol incômodos que nos forçavam a elevar os olhos da página ou mudar de lugar; o lanche que alguém nos trouxe e que deixamos ao lado, sobre um banco, sem tocá-lo, enquanto, acima de nossa cabeça, o sol diminuía de força no céu azul; o jantar para o qual era preciso voltar à casa e durante o qual não pensávamos senão em terminar, imediatamente depois, o capítulo interrompido; tudo isso, de que a leitura teria nos impedido de perceber outra coisa que não o importuno, deixou em nós ao contrário uma lembrança realmente doce (realmente mais preciosa em nosso julgamento atual que aquilo que líamos então com tanto amor), que, se nos ocorre hoje ainda folhear esses livros de outrora, não é senão como calendários que nós teríamos guardado dos dias já passados, e com a esperança de ver refletidos sobre suas páginas as habitações e os lagos que não existem mais.”
Marcel Proust
Obs: tradução minha, agradeço a indicação de eventuais imprecisões e erros.