sábado, 15 de setembro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mas, por trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco pra ouvir, eu não entendo nada de música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono. Eu não tenho tempo. Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar dinheiro. Tenho pressa neste passo alucinado em direção ao buraco-negro do futuro.
Mas você acaba aceitando. Agora somos profissionais. Coloca no toca-discos, como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:
- Mother!
Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?
Caio Fernando Abreu
Trecho de Pra machucar os corações, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 6 de abril de 1986.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Lições
Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.
Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.
Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.
Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
Mia Couto
(Maputo, 2006)
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Solilóquio
Tudo o que importa é ser maravilhoso.
A maravilha: o gesto da inocência.
E do aceno o milagre a renascença
de deslumbrados olhos infantil espaço
e primavera - o homem volta ao homem;
o inefável gera enfim o mal sublime
no coração deserto; e da terna doença
a rosa azul desponta e levanto-me rei.
- Eu mesmo sou o encantador do mundo!
Seres e estrelas brotam de meus lábios…
e morro deste belo sofrimento
de ser maravilhoso!
- Ah, quem pudesse
gritar à noite e ao tempo essas palavras
e partir pelo vento semeando versos
e terminando a criação da terra…
Mário Faustino (1949)
Do livro O homem e sua hora. E outros poemas.
domingo, 22 de julho de 2012
A mulher de Lot
Dizem que olhei para trás de curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração - amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio,
na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam lá no cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus - simplesmente tudo que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou quem sabe foi só um vento que bateu,
despenteou meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma e outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.
Wislawa Szymborska
(tradução de Regina Przybycien)
sábado, 21 de julho de 2012
Vida e obra
Você sabe o que Kant dizia?
Que se tudo desse certo no meio também
Daria no fim dependendo da ideia que se
Fizesse de começo
E depois - para ilustrar - saiu dançando um
Foxtrote
Cacaso
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Sossego
Sim, existe sim um colírio
que lava o mundo, até mesmo
o universo
Aquela mocinha goiana
pele de bronze e de ouro
corpo desgracioso
vista
apoiada na esquadria
da porta da cozinha
que dá para o pátio da entrada
Na pose clássica
musical coreográfica
do pé nuzinho cruzado
com o outro
calçado com a sandália de dedo
(a outra soltinha do lado)
A primeira luz do
primeiro dia
fora do Paraíso
brilha naquele sorriso
de dentes meio vítreo-
escurinhos
O papagaio
no dedo
assovia que gostosa
para a multidão de
desejos
Enquanto o velho
barbicha
que há pouco deblaterava
esquece de tudo
dos ratos,
que não sentem gosto
mas têm faro apurado
e comem a ração dos cachorros
Ficam ali os quatro
a moça, o louro
o velho e um
quarto
O mundo apazigou-se
Sossegou
Francisco Alvim
que lava o mundo, até mesmo
o universo
Aquela mocinha goiana
pele de bronze e de ouro
corpo desgracioso
vista
apoiada na esquadria
da porta da cozinha
que dá para o pátio da entrada
Na pose clássica
musical coreográfica
do pé nuzinho cruzado
com o outro
calçado com a sandália de dedo
(a outra soltinha do lado)
A primeira luz do
primeiro dia
fora do Paraíso
brilha naquele sorriso
de dentes meio vítreo-
escurinhos
O papagaio
no dedo
assovia que gostosa
para a multidão de
desejos
Enquanto o velho
barbicha
que há pouco deblaterava
esquece de tudo
dos ratos,
que não sentem gosto
mas têm faro apurado
e comem a ração dos cachorros
Ficam ali os quatro
a moça, o louro
o velho e um
quarto
O mundo apazigou-se
Sossegou
Francisco Alvim
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