sábado, 24 de outubro de 2009

Ô abre-alas...




Ninguém pode me abater
Nem vai me ferir

Cuidado oh montanhas!
Saiam do caminho
Ou serão abaladas e derrubadas sempre

Oceano abra-se agora
Ou seque, queime, evapore e vá embora

Poema budista (aprendido com o pessoal do Boato)

Simetria



Nunca tão curto
Que não alcance
Nunca tão longo
Que nos separe
O braço tem a extensão
Do encontro
Os ângulos têm a dimensão
Do encaixe
Tanta errância
Tanta estrada
Que no fim vai dar
Em caminho
Nunca tão curto
Que não alcance
Nunca tão longo
Que nos separe

Blufunk is a fact!



Keziah Jones: que bom que o meu tempo é esse!

Retira-se entulho


Retira-se entulho
Da terra prometida
E joga-se uma pá de cal
No que não deu
Prepara-se o terreno
Para receber da vida
O troco da passagem
Da viagem
Sem retorno
Sem sinal
E sem contorno
Que cada um escolheu

Pois é...



Entender é parede.
Procure ser uma árvore.

Manoel de Barros

Desenredo

Grande admiração me causam os navios
e a letra de certas pessoas que esforço por imitar.
Dos meus, só eu conheço o mar.
Conto e reconto, eles dizem ‘anh’.
E continuam cercando o galinheiro de tela.
Falo de espuma, do tamanho cansativo das águas,
eles nem lembram que tem o Quênia,
nem de leve adivinham que estou pensando em Tanzânia.
Afainosos me mostram o lote: aqui vai ser a cozinha,
logo ali a horta de couve.
Não sei o que fazer com o litoral.
Fazia tarde bonita quando me inseri na janela, entre meus tios,
e vi o homem com a braguilha aberta,
o pé de rosa-doida enjerizado de rosas.
Horas e horas conversamos inconscientemente em português
como se fora esta a única língua do mundo.
Antes de depois da fé eu pergunto cadê os meus que se foram,
porque sou humana, com capricho tampo o restinho de molho na panela.

Saberemos viver uma vida melhor que esta,
quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?
Sofrer não é em língua nenhuma.
Sofri e sofro em Minas Gerais e na beira do oceano.
Estarreço de estar viva. Ó luar do sertão,
ó matas que não preciso ver pra me perder,
ó cidades grandes, estados do Brasil que amo como se os tivesse inventado.

Ser brasileira me determina de modo emocionante
e isto, que posso chamar de destino, sem pecar,
descansa meu bem-querer.
Tudo junto é inteligível demais e eu não suporto.
Valha-me noite que me cobre de sono.
O pensamento da morte não se acostuma comigo.
Estremecerei de susto até dormir.
E no entanto é tudo tão pequeno.
Para o desejo do meu coração
o mar é uma gota.

Adélia Prado, em O coração disparado

Valeu



dois namorados
olhando o céu
chegam à mesma conclusão
mesmo que a terra
não passe da próxima guerra
mesmo assim valeu

valeu
encharcar este planeta de suor
valeu
encarar esta vida que podia ser melhor
valeu
esquecer as coisas que eu sei de cor

valeu
valeu

Paulo Leminski, em Envie meu dicionário