quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Começo
Vejo-te um pouco como se já não houvesse
uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí
por todo o lado, onde quer que se respire, dentro
dos próprios frutos. É o começo da noite
e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras:
porque escolhemos tão pouco
aquilo que nos pertence?
Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas
a tua história – à mesa da cozinha, quase um espelho,
quase uma razão. As minhas canções preferidas
pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia
que te vestias com elas. E no entanto
como se apressaram as grandes florestas a invadir
as gavetas, como misturaram as raízes
no eco que fazia o teu desejo contra mim.
Rui Pires Cabral
Li no blog As folhas ardem.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Há pessoas assim cuja existência, cuja carne é matéria literária. Não falo já de qualidade. Falo, sim, da quantidade de poema que há num corpo. Da combustão que é feita de palavras em lugar de oxigênio. Falo daquele que, se não escreve, mata alguém. Daquele que não aceita um aparelho de cognição capaz de o proteger com o vulgar conforto do real. Que se educou para a alucinação.
Hélia Correia
Li no excelente As folhas ardem.
sábado, 6 de outubro de 2012
Miragem
e não é que de repente eu cruzei você na
rua e vi em você uma tela de Chagall um filme
de Buñuel um desfile da Mangueira Maria Bonita
Vênus tudo dançando em você que me eletrocutou me
dissolveu em grãos de plenitude e nada e de repente
não é que eu cruzo você noutro dia noutra rua
e só te vejo rugas cabelos cicatrizes 1m68cm
pele morena 57 kg e eu fico ruminando coisas desconexas
até concluir que ou eu não te vi ou eu não
tô te vendo
Sérgio Rojas
Do livro Liquidificador de tudo.
rua e vi em você uma tela de Chagall um filme
de Buñuel um desfile da Mangueira Maria Bonita
Vênus tudo dançando em você que me eletrocutou me
dissolveu em grãos de plenitude e nada e de repente
não é que eu cruzo você noutro dia noutra rua
e só te vejo rugas cabelos cicatrizes 1m68cm
pele morena 57 kg e eu fico ruminando coisas desconexas
até concluir que ou eu não te vi ou eu não
tô te vendo
Sérgio Rojas
Do livro Liquidificador de tudo.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Patrulha ideológica
te alerta poeta que a p/i te espreita
desestruturou o discurso e embaralhou as letras
te aleart paeto que o pc te recrimina
barroquizou a linguagem e descurou da doutrina
te alaert peota que o sni te investiga
parodiou o sistema e ironizou a política
te alaret poate que o women´slib te corta o genitálio
glosou o objetou sexual e teve orgasmo solitário
te alerat peato que a puc te escanteia
foi tema de mestrado e não quis compor mesa
te areta petoa que a cb não te reedita
gastou muito papel e ouço sangue na tinta
te alrate petao que a abl te indexa
fez enxertos de inglês e sujou a água léxica
te arealt patoe que a cnbb te exorciza
macarronizou o latim e não aprendeu a nova missa
te alatre potae que o esquadrão te desova
traficou palavrinha e não destruiu a prova
te atrela ptoea que o doicodi te herzoga
suspeito sem suspeição e enforcado sem corda
i must be gone and live or stay and die
Affonso Ávila
domingo, 23 de setembro de 2012
Sem nome
Meus seios batem nos céus e nos mares
e a música me transporta do quintal
de minha casa
para os anéis de qualquer planeta perdido.
Em minha cabeça degolada amadurece
um pensamento impossível.
Mais uma vez não vou por bem vou por mal.
Cacaso
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
annie
a febre
não quer passar
o tempo passa
porque não existe
o temporal lá fora
abafa o teu gemido
não grita, annie
que no quarto ao lado
alguém parece dormir
como engolir a lorota
a podre piada divina?
o universo
não tem sintaxe
a vida
sentido
e a natureza
essa puta louca
inventa monstros
microscópicos
que sabem
sugar os sonhos
a noite é longa, annie
na verdade infinita
na verdade não há noite
porque olhos são precisos
e enquanto
a pedra lá fora
espera teu breve nome
teu corpo breve
teu inútil sonho
uma ameba desperta
preguiçosamente
no intestino
de algum porco
Carlos Moreira
Com foto de Lee Jeffries.
Assinar:
Comentários (Atom)



